Deus nos livre desse engano mortal!

Escrito Por Antonio Marcos na quinta-feira, julho 01, 2010 Sem Comentários

A heresia de Donato (Donatismo, Séc. IV) caracterizava-se por pregar uma Igreja pura, opondo-se assim à aceitação de uma Igreja de pecadores. Agostinho de Hipona foi contra a posição de Donato ao afirmar que a Igreja é de santos e pecadores. A teoria de Donato tinha grande ressonância em outras comunidades cristãs. Para o velho Agostinho a Igreja é Ecclesia Mixta, temos na Igreja o joio e o trigo. É certo que o joio deve se tornar trigo, ou seja, espiritualmente falando, o homem deve estar num processo contínuo de conversão; já o trigo, deve ter cuidado e vigiar para que não venha a se tornar joio. Santo Agostinho acreditava que somente na Escatologia (na Parusia, no julgamento final) teremos a visão clara dos salvos e dos perdidos.   
Reconhecer que a Igreja é de santos e pecadores para as nossas gerações já não é tão difícil assim. É óbvio para nós que esta Igreja é de santos e pecadores, basta que olhemos para nos mesmos. Acontece que, apesar de sermos pecadores e imperfeitos, estamos sujeitos ao grande perigo de voltarmos aos extremos donatistas, seja intelectualmente ou por nossas ações, fazendo uma separação entre os salvos e os perdidos entre nós. É a velha cegueira e soberba espiritual. E cá entre nós, isso não acontece simplesmente entre os mais extremistas protestantes, mas, infelizmente, entre nós católicos. Às vezes até mesmo certo puritanismo e falsa piedade nos fazem sentir melhores que os outros.   
O “donatismo velado” parece está de volta em muitas consciências e também grupos religiosos protestantes e católicos. Claro, “quem está em Cristo é uma nova criatura”(2Cor 5,17), transparece vida nova, vida na graça, desta árvore brota frutos bons e agradáveis, as pessoas cheias do Espírito Santo de Deus atraem e são estimadas, e é bom e necessário que isso aconteça, principalmente em dias tão carentes de testemunhos e referências de homens e mulheres de Deus, no entanto, isso se perde completamente e nem pode ser considerado autêntico quando se torna parâmetro para julgar os outros, para sentir-se melhor e mais santo, salvo, enquanto os outros são sempre os perdidos. Deus nos livre desse engano mortal. Também os tempos atuais parecem exigir dos que creem que sejamos mais humildes e parece que essa escola da humildade se torna mais eficaz quando somos os primeiros a vivenciar o aprendizado a partir das nossas próprias fraquezas. “Todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus” (I Jo 4,7).    
Antonio Marcos