2010-06-05

“Salvaste-me quando estava já morrendo!”




O tema da salvação e da ressurreição são muito importantes para mim, não simplesmente por eu ser católico e aluno de teologia, mas eles me são familiares por causa da experiência concreta que fiz em ter sido salvo e ressuscitado da morte. Quem teve a oportunidade de ser salvo da morte física ou de “algum tipo de morte espiritual e moral” sabe extamente do que estou falando. Não me refiro às sombras da minha história somente, ou seja, às drogas, à violência e ao vazio existencial, mas também às ameaças do percurso, mesmo quando a consciência já havia encontrado a Deus.
Fui membro das forças armadas por alguns anos e lá me submeti a treinamentos exaustivos, muitas vezes por dias e em meio ao frio, à escuridão, com fome, sede, cansaço e o emocional abalado. A filosofia era preparar psicologicamente e fisicamente o combatente para uma situação real em que fosse necessário viver o horror da guerra. Lembro que alguns dos meus companheiros não resistiam e começavam a chorar daquela situação. Eu até então achava que não existiriam horrores maiores do que aqueles, puro engano! Quando anos depois passei pela experiência de ver meu irmão definhando lentamente como vítima das drogas, e quase sem poder fazer nada, esgotado em todos os meios possíveis, só tinha que respeitar sua liberdade e ficar ali naquele hospital dia e noite, fazendo-me algumas perguntas e rezando. Minha querida mãe passando por um tamanho sofrimento já não recordava de tudo o que meu irmão havia lhe causado sempre que chegava em casa drogado. Um dia no hospital eu não me aguentei e chorei quando a vi e ouvi dizendo: “Meu Deus, conserve a vida de meu filho, mas ele não me pertence. Que se faça a tua vontade!”.
A dor e o sofrimento, a decepção e a perda nos amadurecem, são uma escola de valor incalculável para quem a vive em Deus. Penso que assim é também o mistério da misericórdia e do perdão que é preciso dar a alguém que nos machucou. Mas não podemos dar o que não temos! “Só ama quem muito se  sentiu amado pelo Senhor!”. Jesus mesmo disse isto àquele homem que reclamou do perfume que fora usado pela mulher para ungir o Seu corpo”. O pecado nos ofusca a visão, promove a revolta, provoca divisão, gera desconfiança e acusação, ressentimento e dureza de coração. Disse a mulher ao profeta: “Vieste à minha casa para me lembrares os meus pecados e matares o meu filho?” Mas disse-lhe o profeta: “Dá-me o teu filho!”. O profeta o curou em nome do Senhor e aquela mulher glorificou a Deus.
Hoje, eu me recordo de muitas pessoas e famílias inteiras que sofrem com o vício do álcool, do adultério, das drogas e do vazio existencial. Conheço muitas pessoas que têm vergonha de  verem seus familiares em situações tão dolorosas e que gostariam muito de que tudo tivesse um contorno de restauração, salvação e ressurreição. Não temos como negar os diversos cortejos que vivenciamos em nossos contextos familiares e relacionais. Queremos encontrar o Senhor e experimentar da Sua compaixão. Queremos ouvir d'Ele o mesmo que disseste à viúva de Naim e ao seu filho: “Não chore!” Aproximou-se, tocou o caixão, e os que carregavam pararam. Então Jesus disse: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te!” O que estava morto sentou-se e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe (Lc 7,11-17). Senhor, eu sei o que isso significa na minha vida, na minha família e na vida de muitas pessoas que conheço. Ajuda-me a ir além quando for preciso perdoar, esquecer de mim mesmo e gerar salvação e ressurreição nos outros, porque salvaste-me quando estava já morrendo!  
Antonio Marcos

Um comentário: