2010-06-29

A Religião vê a vida humana num arco eterno


Muitos afirmam que a razão do indivíduo, assim como a Razão Jurídica do estado Liberal moderno, padece de um “déficit motivacional”. A Razão agnóstica vê a vida humana num arco, que vai do útero da mãe até a cova no cemitério. Tudo se resolve no tempo. Nesta perspectiva, a dor, a renúncia, o desespero, a humilhação, a ofensa, não têm significado e devem ser eliminados a qualquer custo. A Religião, ao contrário, vê a vida humana num arco eterno, que vai do momento em que a pessoa foi pensada por Deus até a eternidade feliz com Ele. Nesta perspectiva, tem sentido a provação, a renúncia, a dor temporal, o perdão, a fraternidade, o otimismo.
Postas essas diferenças teóricas, divergem as respostas a determinados interrogativos. Por que comportar-se moralmente quando os cafajestes se dão bem? Por que me humilhar e não revidar? Por que dar, mais que receber? Por que não meter a mão no dinheiro alheio ou público, que será tomado por outro se eu não o fizer? Por que renunciar ao poder e às riquezas às custas dos fracos? Por que visitar os doentes aos invés de ficar no bar?
O crente acha que a religião é indispensável para a formação moral do indivíduo e da sociedade: dispensar Deus na vida moral é uma ousadia inconsulta. A ética religiosa se considera um “capital pessoal” que se traduz em “capital social”: confiança, respeito, cooperação, amizade, troca de doação, fraternidade, esperança no eterno. O homem se torna plenamente moral e se liberta do mal somente em conexão com o Alto.
O não-crente não tem ninguém a quem obedecer, a não ser a sua sobrevivência na sociedade. Ele confia que a Razão é suficiente para fazer do homem um ser moral e inspirar entre os homens atitudes de limite, respeito, independência, justiça, benevolência ou, pelo menos, não-maleficência. O Racionalismo crê que em todas as mentes humanas existe um senso moral comum, que faz convergir as pessoas em regras básicas como, por exemplo, não cometer infanticídio, não mentir, não trair, manter a promessa, dividir os bens. Era esta a esperança de Kant, quando em 1780 lançou o Racionalismo Ético. Mas, funciona mesmo?
Não raro a moral laica mostra sinais de cansaço-desencanto, sem contar que os sucessos morais da Razão nos últimos duzentos anos aconteceram dentro de sociedades já marcadas milenarmente pela moral religiosa. Enquanto isso, a moral religiosa ainda move compactamente multidões. Parece que a Razão é menor que o homem e leva o ser humano até um determinado nível de eficiência moral, cuja ultrapassagem exige uma força vinda de outro lugar. Vinda do Alto?
Fonte: Antonio Marchionni. ÉTICA, a Arte do Bom, 2008. 

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