2010-06-29

Quem não quer ouvir primeiro a Deus, nada tem a dizer ao mundo


Não há ação exterior sem contemplação interna, que é a dimensão existencial da fé; entretanto, é perfeitamente possível levar uma vida de contemplação interna sem a ação exterior, porque o ato contemplativo é o que fundamenta constantemente toda ação exterior; é ativo e eficiente, fecundo e missionário acima de todos os empreendimentos visíveis da Igreja. É um sinal de pobreza (no mal sentido da palavra) que a Igreja não entenda o ato contemplativo imediatamente, e que seus teólogos difundam cada vez com mais atrevimento a ideia de que a contemplação, que a Igreja levava a sério desde o Século III, inclusive em uma forma de vida específica, é um corpo estranho cuja difícil extirpação, agora lograda, tem custado milênios.
Ao se falar de contemplação, no sentido cristão, não cabe recorrer ao conceito da filosofia grega que expressa “exaltação” exclusiva e unilateral do tempo do monacato siro-egípcio (Evaristo e sua escola), mas em Tomás de Aquino, e que só externamente e como agregador é coerente com a orientação apostólica do mundo. Talvez deva conceber a contemplação em uma linha bíblica mais central; incluindo então a resposta unitária do crente à Palavra de Deus; a entrega sem reservas a essa palavra e a seus fins de redenção do mundo. Assim venceu Antonio, o padre do monacato, representando a Igreja em suas altíssimas batalhas contra o demônio. Assim Orígenes entendeu o papel dos contemplativos: como, acima de tudo, ao modo de Moisés que, com os braços levantados ao céu, da montanha participava nas lutas do povo de Deus. Assim Teresa reformou o Carmelo para fortalecer a Igreja com oração e holocausto, e compensá-la das perdas da Reforma protestante. Assim Teresa do Menino Jesus viveu sua contemplação, ainda mais radicalmente, como centro da obra missionária da Igreja e, confirmando seus ideais, foi proclamada patrona universal das missões. Assim Charles de Foucauld luta diariamente no deserto, diante do Santíssimo, pela plena resposta de amor, consciente de que é o melhor modo de ajudar o mundo.
O efeito decisivo da verdadeira contemplação é totalmente invisível, para tristeza de todas as estatísticas; a fé permanece à disposição de Deus sem cálculo nem reflexão; e o que Deus faz com ela, escapa totalmente ao controle do crente. Até determinado ponto, o crente é um possuído e um escravo, que o caminho da contemplação, percorrido sinceramente ES em desvios, costuma desembocar na escuridão: não saber se Deus escuta, se quer e se aceita o sacrifício.
Quem não quer ouvir primeiro a Deus, nada tem a dizer ao mundo. Alguns dizem que os tempos da contemplação passaram definitivamente; a contemplação pertence a um ciclo cultural anterior. É verdade que quem hoje olha o céu romanticamente encontra chaminés que lançam poluição. Vivemos em mundo de trabalho prosaico que envolve as pessoas inexoravelmente. Hoje não há, tampouco, nenhum canto onde alguém possa concentrar-se e meditar tranquilarmente. Hoje só é possível encontrar-se com Deus em meio da ação; de outro modo nunca o encontraremos. O mundo está em grande movimento, e nada fará o motor parar.
“Dieu primier servy”, dizia Joana D’Arc. Com efeito: se há que servir primeiro a Deus, toda nossa vida no mundo pode obter o sentido de um serviço divino; nosso serviço de escravos na fábrica da humanidade pode ser um ato de livre entrega e aceitação, e nosso encontro permanente e real com o puramente secular pode ser assumido e guiado por um encontro com Deus, que nos acompanha e aborda em todas as partes, sobretudo, se nos referirmos à origem de nossa crença. A opção básica: “faça-se a tua vontade”, quando essa vontade interfere e apressa-me desbaratando meus planos, impõe-se a tudo que nos transborda. Nesse sentido, a vida secular e sua atividade convertem-se em exercício de contemplação, porque agora não temos Deus às costas, mas sim que avançamos até em uma espera aberta.  
Fonte:  Teólogo Hans Urs Von Balthasar. Quem é Cristão?, 2004.         

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