Ouvindo o anúncio da salvação, o mundo creia, crendo espere, esperando ame.

Escrito Por Antonio Marcos na sexta-feira, junho 04, 2010 Sem Comentários

Penso comigo que o que mais nos embaraça – no bom sentido – é mesmo a Palavra de Deus. Nada se compara a ela! Nenhuma literatura, nenhuma filosofia ou poesia, escrito ou pensamento teológico, Compêndio ou Suma se compara às Sagradas Escrituras. Não falo somente por crermos ser ela de inspiração divina, não obstante ter Deus se utilizado das tradições, culturas, contextos, povos e personagens. Os “seus autores” não foram privados das influências históricas, da capacidade de cada um e até de seus limites humanos. Penso que, exatamente por causa disso, ela se torna mais perfeita, pois Deus sempre conta com o homem para o seu processo de salvação, como bem interpretou Agostinho de Hipona. Ficamos surpresos e felizes ao vermos na história do Povo de Deus, nas alegrias e vicissitudes, a inspiração, a condução da providência divina.
A verdade é que Deus agiu nessas linhas e entrelinhas de forma misteriosa e encantadora. A Bíblia é um universo, um mundo ou vários mundos ali compilados, mas não confusos e não fora de um fio condutor, de uma partida, de um processo e de uma chegada. Essa Carta de Amor ou, como diz Maria Emmir, “ao Amor da minha vida”, diz respeito à nossa vida, à nossa origem, missão e salvação. Não é possível entender o mundo, o pensamento e o homem, na sua maneira nítida e  mais configurado com a verdade, sem o conhecimento e a contemplação desta Palavra de Salvação”. Muita gente faz e diz o que quer com os escritos sagrados! Para alguns céticos eles não passam de uma invenção humana, de histórias bem contadas do imaginário do Povo de Israel e depois pelos fanáticos discípulos de um homem que se chamava filho de Deus e enganou a todos.  Para alguns os escritos sagrados ainda se enquadram no estilo mitológico babilônico. Zeus e seus deuses submissos ainda continuam mais dignos de crédito para muitos. Para os modernos “os escritos” simplesmente não são sagrados, pelo menos não mais que as obras de Marx, Freud e Nietzsche.  Em tempos de espiritualidades que prometem unicamente a prosperidade, lamenta-se que os “mestres da Palavra de Deus” estejam induzindo as pessoas para um conhecimento errôneo ou superficial aos escritos sagrados.
Não é verdade que a Igreja privou os cristãos do acesso à Bíblia e agora corre atrás do prejuízo, simplesmente porque não queria que se conhecesse o que comunicava Deus, na tentativa de não ver os interesses da Igreja questionados. Penso que esta é uma acusação muito  infundada. Quando a Igreja precisou “controlar” a leitura dos textos sagrados foi para salvaguardar a consciência das pessoas dos erros, desvios e heresias. Os tempos em que a doutrina era formulada à luz da Palavra de Deus, interpretada e ensinada não foram fáceis. Muitos erros provindos de uma interpretação errônea foram inevitáveis e comprometeram povos numerosos. É verdade que a Igreja tem seus erros e sombras históricas, algumas até fundamentadas na Palavra, mas isso nunca a fez perder a totalidade da sua responsabilidade confiada por Cristo a pregar e ensinar os seus preceitos aos homens de todos os tempos. Eu creio que a Igreja é Mãe e Mestra e que o Magistério é uma escola de autêntica garantia de que não seremos enganados quanto à urgência, beleza e mistério de se conhecer as Sagradas Escrituras e interpretá-las corretamente.
O Concílio Vaticano II foi o marco da maturidade desta relação entre os cristãos e a Palavra de Deus.  Felizes e proféticas são as palavras de são João: “Nós vos anunciamos esta Vida eterna, que estava voltada para o Pai e que nos apareceu: o que vimos e ouvimos, vo-lo anunciamos para que estejais também em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com o  seu Filho Jesus Cristo” (1Jo 1,2-3). “Por isso, seguindo os Concílios de Trento e Vaticano I, o Concílio Vaticano II pretende propor a genuína doutrina sobre a Revelação divina e a sua transmissão, para que, ouvindo o anúncio da salvação, o mundo creia, crendo espere, esperando ame” (Dei Verbum, Proêmio).
“Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para argumentar, para corrigir e para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e qualificado para toda boa obra” (2Tm 3,16-17). O desafio será sempre driblar os que tentam nos motivar a não nos debruçarmos sobre a Palavra de Deus, a não precisar mais dela para ter a paz, a felicidade e a salvação ou usá-la para o nosso bel prazer, interpretando-a segundo o que achamos. Sabemos que ela não é um livro de História, de Ciência, de Direito, Política ou Medicina, mas ela ilumina e dá sentido a todas essas realidades. Rezemos para que o nosso coração volte a se inflamar com a Palavra de Deus, a exemplo dos discípulos de Emaús. Que também nós “tenhamos prazer de escutar o Senhor” (cf. Mc 12,37). “Os que amam vossa lei, têm grande paz!”, canta o Salmista (118@119). Que Deus nos conceda a graça de guardar a Sua Palavra, de vivê-la e anunciá-la, que é o maior desafio, mas esta é a prova de que nós amamos a Deus e assim, “ouvindo o anúncio da salvação, o mundo creia, crendo espere, esperando ame” (Santo Agostinho).
Antonio Marcos