2010-06-07

O perigo da síndrome da “mundicite”


Logo de cara dar para se perguntar: o que é mundicite? Na verdade este termo, esta palavra, não consta no dicionário, pelo menos nos três que consultei. Eu a escutei em sala de aula na Faculdade e achei interessante porque o meu professor de História da Igreja dizia: “eu criei este termo como outro sinônimo de ‘imundície’ (porcaria, sujeira, entulho, etc.), mas identificando-o como uma doença, uma síndrome que tem atingido a muitas pessoas”.

Pois bem, do que se trata a síndrome da mundicite a qual todos estamos sujeitos? Trata-se da contaminação nas nossas vidas, coração e mente, de tudo aquilo que já não mais nos convém como cristãos, primeiramente, e como alunos, pessoas em processo de formação intelectual, pois, embora filhos de uma cultura e influenciados pelo contexto histórico vigente, somos agora homens reciclados em novos valores e sensibilizados com o que é bom, belo e verdadeiro. Mas, acontece que vezes por outra, esquecemos disso e somos vítimas da síndrome da mundicite, ou seja, acabamos influenciados por leituras, músicas, idéias, conversas, objetos, lazeres e até lugares que não acrescentam nada de bom a nós e não nos ajudam no cultivo daquilo que somos. Parece que, mesmo estudando e aprendendo, tendo a consciência mais esclarecida e fazendo a experiência da fé e dos valores evangélicos, não conseguimos evitar esse grau de mundicite em nós. Às vezes o mundo parece mais sedutor e nossa própria razão é obscurecida e “o bem que queremos, não fazemos; o mal que não queremos, fazemos”. As imundícies do mundo entram em nós com tanta facilidade e deixam turvos o belo, o bom e o verdadeiro.

Esclareço que não se trata de privar-se da vida real, concreta, imanente, de viver excluído de alguns e sentir-se melhor que os outros, não, mas de vivermos em contínuo discernimento quanto ao que nos edifica e quanto ao que só acrescenta lixo nas nossas consciências, corpo e alma. O que apreendemos do conhecimento deve se tornar experiência de vida, o que não é fácil, mas é necessário e vital. Encorajadoras são as palavras de São Paulo, antídoto da síndrome da mundicite: “(...) precisais ser renovados pela transformação espiritual de vossa inteligência e revestir o homem novo criado segundo Deus na justiça e na santidade que vêm da verdade” (Ef 4, 23-24). Parafraseando o filósofo Nietzsche que diz: “Quem tem por que viver aguenta quase todo como”, faço memória da nossa identidade e responsabilidade diante de tanta escassez moral e intelectual. Temos um sentido de vida, somos pessoas humanas e cidadãos educados, somos cristãos, não nos deixemos levar pela mentalidade do simplesmente fazer como todos fazem, seja na leitura, no pensar, no vestir, no comer, na diversão e principalmente na forma de relacionar-se. Eis o grande desafio: não ser tragado pela síndrome da mundicite, mas estar em “contínuas travessias”, como diz o grande Fernando Pessoa.

Antonio Marcos

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