Namoro: os dois precisam ir até o poço!

Escrito Por Antonio Marcos na sábado, junho 12, 2010 4 comments

Falar do namoro é algo muito especial e ao mesmo tempo delicado, pois ele constitui uma das coisas mais belas e desejadas da vida humana, especialmente quando se é jovem, porque manifesta aquela vocação originária da complementaridade colocada na nossa natureza pelo próprio Criador. Sentir-se em condições de ter alguém e viver esse encontro é mesmo um maravilhar-se diante do prazer e da felicidade que gera dentro de nós. Não se trata somente do sair do anonimato ou mesmo da solidão para alguns, mas viver a incomparável experiência de amar e ser responsável por alguém que me é confiado. O namoro é essa primeira comunhão de vida a dois onde começo a aprender a ser para o outro como parte do mistério de viver um dia o definitivo , o estar ao lado de quem amamos até que a vida definhe.

O namoro é também um mistério, não somente no que acontece na nossa psiquê, mas no que acontece dentro da alma, no mais profundo. Não sabemos explicar – mas cremos - a gênese da comunhão e identificação interior com uma pessoa. Muitas vezes namoramos e amamos uma pessoa a quem jamais imaginávamos ser possível, que a conheceríamos, que construiríamos uma história juntos. O encontro, a amizade, a convivência e um universo de detalhes fizeram com que nossos corações se encontrassem e despertassem para o amor. Daí que a convivência explica que o namoro não obedece ao esquema de seguir a idade, a cor, a religião, as condições financeiras, culturais, a inteligência e até os nossos gostos. Geralmente isso é observado, mas o amor, que é antecedido por esse furacão do apaixonamento, não segue sempre tal esquema. Isso porque o segredo está essencialmente dentro de cada pessoa e isto só se descobre quando se convive e se conhece.

Eu dizia que o namoro é também delicado, sim, e isto se dá pelo fato de que uma relação a dois requer a abertura para o amor, a escolha, a confiança, o compromisso, o caráter, o mínimo de responsabilidade e de altruísmo. Isto não vem por mágica, mas se constrói pacientemente, porém, na reciprocidade. Nem todos têm essas características sem as quais a relação do namoro se torna impossível. O medo de sofrer, decepcionar-se, iludir-se e fracassar depois de dar o melhor dos sentimentos ao outro, pode estar exatamente na ausência desses elementos ou na construção irresponsável dos mesmos. O namoro em nossos dias continua mais ainda a ter os seus riscos, mas é necessário vivê-los.  Não existe uma pessoa pronta, perfeita, onde o imaginário fantasioso idealiza. O que existe é alguém que é colocado na minha vida e história onde acontece uma primeira identificação, mas se dá num processo de descoberta, de conquista e de aperfeiçoamento. Não se trata de autoritarismo e de exigir a mudança do outro por nossas forças, mas é o amor que gera esse querer configurar-se ao outro. Se não existir o verdadeiro amor que cuida e quer a promoção do outro, então não há mudanças essenciais, mas apenas uma troca de experiências dolorosas, de projeções, carências, compensações e cobranças. Sem amor não há doação, não se tem como fazer o ouro feliz!  

 É muito bom ter alguém a quem se ama de verdade e é amado. A gente pensa, quer ver, quer estar perto, quer dar provas de amor; a gente fica feliz ao falar com a pessoa, escreve o nome, rir sozinho, rir a dois, e ninguém é mais importante do que a quem amamos. É o mistério de sermos únicos um para o outro sem estarmos isolados dos que estão ao nosso redor. Ao mesmo tempo este amor não se torna uma oposição aos outros níveis de amor que temos pelos nossos amigos e demais pessoas, mas, especialmente pela nossa família e nossos pais, pois, de forma especial, é sinal de sabedoria e segurança quando contamos também com o apoio deles. O namoro não é fechamento, mas abertura, comunicação, doação, alegria e, especialmente, testemunho. É lindo ter alguém com quem podemos estar na maior parte de nossas alegrias e dores. O beijo, o abraço, o carinho, aquele “ciúmes equilibrado” que protege, que cuida, que quer o bem, que sabe que o namoro tem também um compromisso e uma dimensão de pertença, tudo isso nos projeta, nos envolve numa felicidade indescritível. Como é lindo namorar, poder participar do processo evolutivo daquela pessoa, ter alguém e ser de alguém!

Também o namoro exige silêncio, renúncia, diálogo, muito diálogo! O namoro requer a coragem da verdade. O dia dos namorados é uma ação de graças por todos os que estão namorando, estão felizes e construindo uma história de amor juntos. Peço a Deus que os casais de namorados vivam felizes e responsavelmente esta relação. Não deixem que o mundo os engane com a deturpação do valor da amizade, do namoro, do corpo e do sexo. Não transformem esta linda relação em mágoas, dores e experiências de prisões. Sejam livres e vivam esta escola de relação em  Deus. O namoro é uma vocação, linda e corajosa vocação, mas que vale a pena quando o encontro traz a alegria da vida em Deus. 
Concluo com as belas palavras do jovem Isaac, dirigidas a Deus quando pedia uma namorada segundo o Seu coração: “Senhor, Deus do meu amado Abraão, permite que eu tenha hoje um feliz encontro e mostra a tua amizade para com o meu amo Abraão. Eis-me de pé, junto à fonte, e as filhas da gente da cidade saem para tirar água no poço. Pois bem! A jovem a quem eu disser: ‘Inclina teu cântaro para que eu beba’ e que responder: ‘Bebe, e eu darei de beber também aos teus camelos’, é ela que terás destinado a teu servo Isaac; por ai sabereis que mostraste amizade com o meu amo” (Gn 24, 12-14).  Sim, o namoro não é um acidente, muito menos precipitação e desespero em ter alguém, mas vocação, mistério de um encontro por meio de quem já pensou um projeto feliz para nós. Deus fará a sua parte quando se trata da nossa felicidade. Façamos também a nossa! Os dois precisam ir até o poço, lá se dará o encontro. Este poço é o tempo de Deus! Feliz dia dos namorados! Que Maria e José, exemplos de namorados, sejam fontes seguras para esta fascinante comunãho de vida a dois. Assim seja!

Antonio Marcos