Namoro à distância, é possível?

Escrito Por Antonio Marcos na sexta-feira, junho 04, 2010 Sem Comentários

Uma pessoa me escreveu nesses dias passados e me fez esta pergunta: “Antonio Marcos, gostaria que você me respondesse: é possível um relacionamento – namoro – à distância?.” Eu comecei dizendo que sim, claro que é possível, sem dúvida! No entanto, existem algumas vírgulas que precisam ser postas na questão. Falo aqui pressupondo que seja um relacionamento onde já se conheça a pessoa, já se tenha identificado e escolhido uma a outra, mas que, por algum motivo importante e necessário, ela esteja distante de nós. Portanto, não falo aqui de quem está se relacionando na internet com uma pessoa desconhecida e que pensam em estreitar essa relação. Essa questão será tema de um novo artigo! Está certo?

Veja, são vários os motivos que podem nos separar da pessoa a quem amamos e a quem tanto queremos. Essas rupturas são possíveis em qualquer relacionamento. A distância entre duas pessoas que se amam não será uma ameaça, desde que aja um conteúdo na relação, uma reciprocidade no processo de cultivo do sentimento, considerando a confiança, o respeito e a fidelidade. Quem ama de verdade é capaz de esperar o tempo que for uma pessoa, mas essa espera não pode estar dentro de uma ilusão e de uma cegueira quanto à objetividade e à possibilidade desta relação. Tem gente que faz esse processo sozinho, ou seja, só ela ama, espera e acredita, enquanto a outra pessoa segue a sua vida como se nada estivesse acontecendo. Tudo bem, pode ser uma opção dela agir assim, mas é provável que seja uma apostar na frustração e no sofrimento, sem contar com o não desfrutar da vida que passa e passa rápido.

Quando falo de objetividade quero dizer que precisa ser claro o sentimento e as razões da espera. Já com a possibilidade quero dizer que só se deve esperar uma pessoa quando não aja impedimentos contra a verdade, a coerência e a nossa própria consciência.  Acho que você me entendeu, não vou dar exemplos! Eu sei que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, afirma o filósofo Pascal, e não podemos agora racionalizar o mistério que nos faz unidos a uma pessoa. Tem casos extraordinários que só o amor e a fé explicam. Tem gente que ama a vida toda uma pessoa, sem a ter, e quem sou eu para julgar que esta pessoa vive uma infelicidade? Tem gente que espera, confia, espera de novo, recomeça e alcança o seu objeto. Quem leu a Divina Comédia, Dante Alighieri, conhece a sua história de amor à Beatriz. Ele se apaixonou por Beatriz e a viu unicamente três vezes, mas nunca mais a esqueceu. Por toda a vida Dante incluiu Beatriz em sua literatura. Essas razões do coração, quem vai entendê-las?  
 
Também é verdade que talvez possa não ter havido ainda tempo para aquela convivência e escolha. Mais ainda é necessário o crescimento da confiança. Por algum motivo - embora nos conheçamos - esse processo de conquista e cultivo possa estar sendo lento.  A distância nunca será empecilho para quem faz sua escolha no amor e na verdade. O medo de perder a pessoa e o nosso tempo, de estarmos sendo enganados, de que tudo termine em nada é uma possibilidade concreta, quase inevitável quando se trata de um relacionamento à distância, mas tudo dependerá, como já disse, do conteúdo da relação, do conhecimento um do outro, da conquista da confiança e do sentimento cultivado. Só o amor e a verdade podem nos livrar da sombra de vivermos simplesmente das promessas! Prometer significa fidelidade à palavra dada e sustentação no amor, jamais na simulação e na falta de transparência e compromisso. Sim, é preciso que aja correspondência, “reciprocidade responsável”, porque tem gente que até corresponde, mas não tem caráter, não se decide, não sabe o que quer e a quem quer, detalhe; e então acaba machucando os sentimentos da outra pessoa, iludindo-a e frustrando suas esperanças. 

O namoro à distância é possível, graças a Deus, pois são numerosos os exemplos bonitos que temos. Muita gente saberia dizer melhor do que eu sobre os desafios, o mistério e a beleza de um namoro à distância que não foi corroído pela separação. Para alguns não deu certo e, apesar da dor, souberam recomeçar. Para outros valeu a pena esperar, valeu a pena permitir que esse sentimento e toda a relação passassem pela prova e pela purificação. O que imprimimos dentro do coração da outra pessoa é o que perdura. O que construímos de significado para o outro é o que vale. Daí que não se precisa temer as ameaças exteriores. Conheço casais de namorados que passam anos sem se viver, mas a confiança, a intensidade da relação e o amor são os mesmos, e até maiores. Quando tudo isto é vivido à luz de Deus temos força e discernimento para viver esse processo a dois e vivê-lo com liberdade de filhos de Deus, jamais como escravos de uma ilusão, subjugados aos nossos apetites. Deus é fiel e é o autor dos encontros que nos dignificam. Deus é quem melhor sabe nos ajudar a viver o tempo do cultivo, da espera e dos discernimentos corajosos!

Antonio Marcos