2010-06-28

Infeliz do homem que, na dor, está sem fé!


Ao amanhecer disse Francisco: Que alívio! Escreve Irmão Leão: O clarear do dia é um beijo de Deus. Louvado sejas, meu Senhor, pelo amanhecer: é o fim das dores e tem aparência de esperança. Se não houvesse aurora, sucumbiríamos, sem dúvida, ao desespero. A noite é terrível. Porém, as dores de Francisco não foram aliviadas. 

Ao nascer do sol, veio irmã Clara trazendo caldo de galinha com ingredientes que, segundo ela, haveria de reanimar o doente. O Irmão não tinha vontade de tomar nada. Mas, por cortesia, endireitou-se e começou a tomar, lentamente. Não conseguiu acabar. Vomitou tudo, entre espasmos de dor. Frei Leão foi para um canto chorar. Clara, com lágrimas nos olhos, acomodou o Irmão, ajudou-o a deitar-se e o cobriu. 

Estou crucificado, Irmã Clara, disse Francisco. A dor me morde como um cachorro raivoso e me tritura os ossos. Disse-lhe Clara: “Pai Francisco, que é que eu posso dizer? Tu sabes tudo. Tu nos falaste tantas vezes do Senhor Crucificado”. Ouvindo essas palavras, o Irmão Crucificado abriu os olhos como se estivesse acordado de um letargo. Tens razão, irmã Clara. Por que queixar-me? Como pude esquecer meu Senhor Pobre e Crucificado? Irmão Leão, se nessa noite saiu alguma lamentação de minha boca e a anotaste, apaga-a imediatamente. Não fui um verdadeiro cavaleiro de meu Senhor. Louvado sejas, Senhor, pela irmã dor, companheira inseparável de meu Senhor Crucificado. 

Bendito sejas, meu Deus, continuou, por essa criatura, a dor, de quem todo ser vivente foge. A irmã dor nos purifica, nos solta das amarras terrestres e nos lança nos braços de Deus. Irmão Leão, escreve: Bem-aventurado o homem a quem a dor surpreende armado pela fé e o amor. Será purificado como o ouro e converter-se-á em uma fonte de mérito e vida. Infeliz do homem que, na dor, está desarmado e sem fé. Será certamente aniquilado. Ó meu glorioso Senhor Jesus Cristo, valente companheiro da dor, segura minha mão e faze de mim o que quiseres. 

Pe. Larrañaga. O Irmão de Assis, Cap. VI, A irmã dor, 1986.

0 comentários:

Postar um comentário