2010-06-18

É verdade, há dores e lágrimas, mas não percamos a alegria!


Todos nós sabemos da real necessidade em nossos dias de se fazer uma abordagem positiva sobre os incômodos da vida e sobre aquela realidade obscura do sofrimento que atinge a todos, de forma sadia e coerente. Claro, não fazemos isso como apologia, mas como referência ao mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Sem Jesus Cristo o homem não sabe quem é ele, muito menos a sua dor, e tem dificuldade de encontrar o significado de seus fracassos. “O mistério de Cristo revela o mistério do homem”, diz o Concílio Vaticano II (GS 22).
O que queremos é denunciar essa “cultura” utilitarista, onde o prazer pelo prazer gera a cultura do descartável. Na verdade, de cultura não tem nada! Recordo-me de um fato que me falou muito: Um dia, enquanto ministrava uma palestra sobre o sentido da vida e o não à eliminação da vida, independente às condições em que esta vida se encontrar, uma adolescente levantou a mão e me disse com essas palavras: “Mano, é o seguinte: eu acho que essa da gente sofrer por alguém não existe! Pois, no dia em que minha corôa (mãe) ficar no hospital, por doença grave e não tiver cura, se depender de mim, mandarei matá-la na hora. Não vou sofrer por ela e nem vou deixá-la sofrer. Os dois lados ganham. Pronto, tá resolvido!”.
Confesso que na hora fiquei um pouco engasgado, mas logo respondi com serenidade àquela colocação da adolescente, tentando ajudá-la a compreender que a vida está sempre no plano do amor e da dignidade da filiação divina, por isso não pode servir ao nosso prazer egoísta. Não somos a medida do que é certo e nem verdadeiro, mas existe uma lei interior que corresponde com a lei divina que diz que o amor cuida e gera vida sempre. Matar, descartar, abortar, nunca será fruto do amor, mas do egoísmo e de uma consciência relaxada dos valores mais intrínsecos ao homem. Claro, não desprezo as circunstâncias, os diversos contextos de dor e sofriemnto, mas matar o inocente e qualquer outra vida só porque me incomoda não é digno, é crime.  
Tentando olhar o interior daquela adolescente eu via o que está na consciência e no coração de muitos dos nossos jovens. Tudo diz que deve ser descartado, qualquer vínculo de relacionamento, inclusive, a mãe ou o pai que envelheceu e já “não produz mais”, e por isso agora são causadores de dor e sofrimento. Basta ainda percebermos o casamento (os divórcios, as contendas, as divisões e ambições), como também a amizade e as relações sociais. A regra de ouro é: “Nada de dor! Tudo deve ser só prazer!” Na verdade, falta a maturidade humana e os valores que dignificam o homem. Falta Deus mesmo no coração do homem; falta o Deus de Jesus Cristo e não o Deus segundo os nossos caprichos e segundo as nossas imagens deturpadas de Deus, “de um Deus que não redime” e não se compadece com o nosso sofrimento. Deus está com o homem, sempre esteve conosco, por mais que estejamos em situações dolorosas e incompreensíveis.
O mistério da dor anda sempre na linha da liberdade. Está em jogo as consequências do mau uso da minha liberdade, do mau uso que faz o outro quanto à sua liberdade, gerando consequências ruins, tais como: a doença, a tragédia, o adultério, a violência, as contendas.  Mas existe também aquela porção do mal que me atinge e já não tem uma explicação fácil e uma resposta pré-pronta. No entanto, não somos filhos da dor e nem da morte, mas da vida em abundância nos conquistada pelo Sangue de Cristo. Já não podemos esquecer que a dor e a morte participaram do processo da nossa vida nova em Jesus Cristo.
A cruz é a testemunha desta dor, desta morte que gera vida! Cristo deu livremente a Sua vida por nossa salvação! Suas dores e sofrimentos se transformaram em chagas gloriosas. No processo natural parece que a dor é também prelúdio para a vida (cf. Jo 16,20-21); Inseridos no mistério da vida cristã, estando nós a caminho da felicidade eterna, estamos sujeitos a vivermos o que não queremos, inclusive a dor, a perda, as rupturas e o sofrimento, mas, Aquele que está em nós, Jesus Cristo, é mais forte do que a morte. É verdade, há dores e lágrimas, mas não percamos a alegria! Nossa alegria não se sustenta pelos fatos, mas pela experiência renovada com o amor de Deus, por isso “contristados, mas sempre alegres” (cf. 2Cor 6,8-10). Não percamos a esperança, nunca! Apesar das nossas labutas, jamais percamos o otimismo, a esperança em nós mesmos, nos outros, em Deus, na vida, na alegria de sermos quem somos, filhos de Deus, acima de tudo.

Antonio Marcos

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