2010-06-08

Coisas não tão fáceis de viver em nossos dias!


Ninguém duvida mais que estamos passando por processos acelerados e dolorosos em relação aos valores, aos hábitos bons, aos sonhos que nos projetam à meta, aos ideais que nos arrancam da falta de sentido, às convicções que nos diferenciam na maneira de pensar e de agir, e à própria identidade que salvaguarda o protagonismo de cada um. Eu existo, não porque simplesmente penso, como diz o “Cógito Cartesiano”, mas porque trago comigo uma identidade, uma dignidade humana, sou uma pessoa, tenho valor por seu eu mesmo, não porque tenho curso superior, porque sou branco, rico, jovem, porque tenho QI elevado, porque não tenho uma deficiência ou qualquer “deformação” genética. Pensar que o que me faz existir é isso, acaba me expondo ao risco de ser impregnado por uma “mentalidade eugênica”, ou seja, seletiva, exclusivista, pra não dizer, nazista. Isso tem consequências drásticas na vivências dos valores e dos hábitos do cotidiano. Rapidamente acontece em nós o que o filósofo Martin Buber chama de “eclipse dos valores fundamentais”.

Afirma o filósofo Battista Mondin: “A questão dos valores é uma questão concreta, existencial e profundamente humana. Ela nos toca de perto como homens e interessa profundamente à nossa vida, tanto no nível pessoal como social”. Citando Ibañez, diz Mondin: “As coisas nunca nos deixam indiferentes. Preferimos algumas coisas a outras. Algumas nos causam repugnância enquanto outras nos atraem, algumas nós estimamos, enquanto outras não suscitam em nós interresse algum. Algumas nós classificamos como boas, outras como más. Para algumas, somos capazes de fazer grandes sacrifícios, enquanto daríamos qualquer coisa para subtrair-nos a outras. Em outras palavras, em cada instante estamos avaliando, reconhecendo um valor ou um antivalor em tudo o que experimentamos” (B. Mondin. Valores fundamentais, 2005).

Concordo com o filósofo quando diz “que as coisas nunca nos deixam indiferentes”. Mas, até que ponto a não indiferença corresponde a uma consciência que ilumina as atitudes e leva a pessoa a escolher coerentemente o que evidencia a racionalidade e a dignidade? É preciso persuadir o outro para o bem comum e não para o próprio interesse egoísta, dar o lugar para uma pesssoa mais necessitada no ônibus, dirigir levando em conta a vida própria e a do outro, devolver o que não nos pertence, ser justo, desprendido de nossos confortos, pedir desculpas, controlar o temperamento, ser tolerante, exercitar cada dia a paciência e a gerenosidade, libertar os outros de nossos tribunais de culpas e mágoas, indignar-se com o mal e com as injustiças, ri de si mesmo para não tornar a vida um peso, escutar os outros, não dogmatizar nossa maneira de pensar, esforçar-se para compreender que há sempre motivos bons ou maus por trás das ações, ser presença de esperança, ser uma pessoa de fé sem ter vergonha de sentir-se o estrangeiro, são coisas simples, mas não tão fáceis de vivê-las em nossos dias, são valores, são hábitos, tudo isto é vida! Eu também desejo muito vivê-la!

Antonio Marcos

Um comentário:

  1. Essa cultura de solidariedade e comunhão vivida em nossos atos mais corriqueiros, pressupões abertura e decisão de sair de nossos casúlos. Chega de vizinhos desconhecidos, de amigos superficiais, de sentir só mesmo rodeado de pessoas. Creio que assim é o jeito moderno de relacionar-se. Sempre na casca das coisas, sempre querendo levar vantagem em tudo.
    Que tal o desafio de viver o novo. Que tal dar bom dia, saber o nome da pessoa que lhe atende na padaria, farmácia, ônibus. Que tal carregar o bom humor nas situações complicadas e difíceis do dia-a-dia. Que tal ser promotor do diálogo em nossas próprias casas, que tal perdir desculpas, que tal perdoar.
    Claro que isso transcende a um mero comportamento social. Isso tem raízes cristãs. Simples propósitos não duram muito. Essas ações devem ser fruto de uma amizade profunda e firme com Jesus.

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