A Igreja se seculariza quando reduz a fé à medida humana

Cardeal Robert Sarah adverte: a secularização entra na igreja quando deixa de propor uma fé fundada na revelação de Cristo para reduzi-la às exigências e à mentalidade do homem moderno.

Viver a difícil liberdade

Nestes nossos dias muito se fala de liberdade, seja de expressão, de opinião, sexual, afetiva ou financeira.

Sobre os Felizes

Olá, amigos e amigas leitoras, estamos de volta! Partilho com vocês esta Coluna me enviada no WhatsApp por uma amiga.

Namoro: escola de aprendizados felizes, apesar dos desafios

Partilhar a vida a dois é um anseio do coração humano, uma vocação, uma vivência que passa por muitas experiências de aprendizado...

2010-06-30

Os jovens buscam a beleza no amor



A vocação para o amor é obviamente o elemento de contato mais estreito com os jovens. Como sacerdote me conscientizei disso bem cedo. Sentia como que um impulso interior nesta direção. É preciso preparar os jovens para o matrimônio, é preciso ensinar-lhes o amor. O amor não é uma coisa que se aprende, e todavia não há uma coisa tão necessária a ser aprendida! Quando jovem sacerdote aprendi a amar o amor humano. Este é um dos temas fundamentais em que concentrei o meu sacerdócio, o meu ministério de pregação, no confessionário, bem como por meio da palavra escrita. Quando se ama o amor humano, nasce também a viva necessidade de empenhar todas as forças a favor do “belo amor”.
Na verdade o amor é lindo. Os jovens, afinal, buscam sempre a beleza no amor, desejando que o seu amor seja lindo. Se cedem às fraquezas, seguindo modelos de comportamentos que bem poderiam ser classificados como “escândalos no mundo contemporâneo” (e são modelos lamentavelmente difundidos), no fundo do coração desejam um amor lindo e puro. Isso vale tanto para os rapazes como também para as moças. Sabem, afinal, que ninguém pode conceder-lhes um amor assim, a não ser Deus. E portanto, estão dispostos a seguir a Cristo, sem olhar para os sacrifícios que isso pode implicar.
Fonte: João Paulo II. Cruzando o limiar da esperança, 1994.
Imagem:
Namorados Carlos Emanoel e Aline, CA Shalom, Missão Brasília

As relações na internet promovem a solidariedade humana


A amizade é um grande bem humano, mas esvaziar-se-ia do seu valor, se fosse considerada fim em si mesma. Os amigos devem sustentar-se e encorajar-se reciprocamente no desenvolvimento dos seus dons e talentos e na sua colocação ao serviço da comunidade humana. Neste contexto, é gratificante ver a aparição de novas redes digitais que procuram promover a solidariedade humana, a paz e a justiça, os direitos humanos e o respeito pela vida e o bem da criação. Estas redes podem facilitar formas de cooperação entre povos de diversos contextos geográficos e culturais, consentindo-lhes de aprofundar a comum humanidade e o sentido de corresponsabilidade pelo bem de todos.

Todavia devemo-nos preocupar por fazer com que o mundo digital, onde tais redes podem ser constituídas, seja um mundo verdadeiramente acessível a todos. Seria um grave dano para o futuro da humanidade, se os novos instrumentos da comunicação, que permitem partilhar saber e informações de maneira mais rápida e eficaz, não fossem tornados acessíveis àqueles que já são econômica e socialmente marginalizados ou se contribuíssem apenas para incrementar o desnível que separa os pobres das novas redes que se estão a desenvolver ao serviço da informação e da socialização humana.

Fonte: Papa Bento XVI, Mensagem para o 34o Dia Mundial das Comunicações, 2009

A amizade nas redes de relacionamentos


O conceito de amizade logrou um renovado lançamento no vocabulário das redes sociais digitais que surgiram nos últimos anos. Este conceito é uma das conquistas mais nobres da cultura humana. Nas nossas amizades e através delas crescemos e desenvolvemo-nos como seres humanos. Por isso mesmo, desde sempre a verdadeira amizade foi considerada uma das maiores riquezas de que pode dispor o ser humano. Por este motivo, é preciso prestar atenção a não banalizar o conceito e a experiência da amizade. Seria triste se o nosso desejo de sustentar e desenvolver on-line as amizades fosse realizado à custa da nossa disponibilidade para a família, para os vizinhos e para aqueles que encontramos na realidade do dia a dia, no lugar de trabalho, na escola, nos tempos livres. De fato, quando o desejo de ligação virtual se torna obsessivo, a consequência é que a pessoa se isola, interrompendo a interação social real. Isto acaba por perturbar também as formas de repouso, de silêncio e de reflexão necessárias para um são desenvolvimento humano. 


Fonte: Papa Bento XVI, Mensagem para o 34o Dia Mundial das Comunicações

2010-06-29

O que Cristo realmente nos trouxe?


Jesus nos diz o que objetou a Satanás e o que disse a Pedro e o que de novo explicou aos discípulos de Emaús, ou seja, que nenhum reino deste mundo é o reino de Deus, o estado de salvação da humanidade em absoluto. O reino humano permanece humano, e quem afirma que pode erigir um mundo santo concorda com o engano de Satanás, entrega-lhe o mundo nas mãos.
Então se levanta certamente agora a grande questão: mas então o que é que Jesus realmente trouxe, se não trouxe nem a paz para o mundo, nem o bem-estar para todos, nem um mundo melhor? O que ele nos trouxe?
E a resposta é dada de forma muito simples: Deus. Ele nos trouxe Deus. Ele trouxe aos povos da terra o Deus cujo rosto lentamente tinha antes se desvelado desde Abraão passando por Moisés e pelos profetas até a literatura sapiencial; o Deus que apenas em Israel havia mostrado o seu rosto e que, no entanto, tinha sido venerado sob múltiplas sombras entre os povos do mundo; este Deus, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o verdadeiro Deus.
Ele nos trouxe Deus: agora conhecemos o seu rosto, agora podemos chamar por Ele. Agora conhecemos o caminho que como homens devemos percorrer neste mundo. Jesus trouxe Deus e assim a verdade sobre o nosso fim e a nossa origem; a fé, a esperança e o amor. Somente por causa da dureza do nosso coração é que pensamos que isso seja pouco. Sim, o poder de Deus é suave neste mundo, mas é o verdadeiro, o poder que permanece. Parece que as coisas de Deus se encontram sempre “em agonia”. Mas se mostram como o que realmente subsiste e redime. As riquezas do mundo que Satanás podia mostrar ao Senhor desmoronaram-se entretanto. A sua glória, a sua doxa revelou-se apenas aparência. Mas a glória de Cristo, a glória do seu amor, humilde e sempre disposta para o sofrimento, nuca se desmoronou e nunca perecerá.
Fonte: Bento XVI. Jesus de Nazaré, Cap. II, As tentações de Jesus, 2007.

Quem não quer ouvir primeiro a Deus, nada tem a dizer ao mundo


Não há ação exterior sem contemplação interna, que é a dimensão existencial da fé; entretanto, é perfeitamente possível levar uma vida de contemplação interna sem a ação exterior, porque o ato contemplativo é o que fundamenta constantemente toda ação exterior; é ativo e eficiente, fecundo e missionário acima de todos os empreendimentos visíveis da Igreja. É um sinal de pobreza (no mal sentido da palavra) que a Igreja não entenda o ato contemplativo imediatamente, e que seus teólogos difundam cada vez com mais atrevimento a ideia de que a contemplação, que a Igreja levava a sério desde o Século III, inclusive em uma forma de vida específica, é um corpo estranho cuja difícil extirpação, agora lograda, tem custado milênios.
Ao se falar de contemplação, no sentido cristão, não cabe recorrer ao conceito da filosofia grega que expressa “exaltação” exclusiva e unilateral do tempo do monacato siro-egípcio (Evaristo e sua escola), mas em Tomás de Aquino, e que só externamente e como agregador é coerente com a orientação apostólica do mundo. Talvez deva conceber a contemplação em uma linha bíblica mais central; incluindo então a resposta unitária do crente à Palavra de Deus; a entrega sem reservas a essa palavra e a seus fins de redenção do mundo. Assim venceu Antonio, o padre do monacato, representando a Igreja em suas altíssimas batalhas contra o demônio. Assim Orígenes entendeu o papel dos contemplativos: como, acima de tudo, ao modo de Moisés que, com os braços levantados ao céu, da montanha participava nas lutas do povo de Deus. Assim Teresa reformou o Carmelo para fortalecer a Igreja com oração e holocausto, e compensá-la das perdas da Reforma protestante. Assim Teresa do Menino Jesus viveu sua contemplação, ainda mais radicalmente, como centro da obra missionária da Igreja e, confirmando seus ideais, foi proclamada patrona universal das missões. Assim Charles de Foucauld luta diariamente no deserto, diante do Santíssimo, pela plena resposta de amor, consciente de que é o melhor modo de ajudar o mundo.
O efeito decisivo da verdadeira contemplação é totalmente invisível, para tristeza de todas as estatísticas; a fé permanece à disposição de Deus sem cálculo nem reflexão; e o que Deus faz com ela, escapa totalmente ao controle do crente. Até determinado ponto, o crente é um possuído e um escravo, que o caminho da contemplação, percorrido sinceramente ES em desvios, costuma desembocar na escuridão: não saber se Deus escuta, se quer e se aceita o sacrifício.
Quem não quer ouvir primeiro a Deus, nada tem a dizer ao mundo. Alguns dizem que os tempos da contemplação passaram definitivamente; a contemplação pertence a um ciclo cultural anterior. É verdade que quem hoje olha o céu romanticamente encontra chaminés que lançam poluição. Vivemos em mundo de trabalho prosaico que envolve as pessoas inexoravelmente. Hoje não há, tampouco, nenhum canto onde alguém possa concentrar-se e meditar tranquilarmente. Hoje só é possível encontrar-se com Deus em meio da ação; de outro modo nunca o encontraremos. O mundo está em grande movimento, e nada fará o motor parar.
“Dieu primier servy”, dizia Joana D’Arc. Com efeito: se há que servir primeiro a Deus, toda nossa vida no mundo pode obter o sentido de um serviço divino; nosso serviço de escravos na fábrica da humanidade pode ser um ato de livre entrega e aceitação, e nosso encontro permanente e real com o puramente secular pode ser assumido e guiado por um encontro com Deus, que nos acompanha e aborda em todas as partes, sobretudo, se nos referirmos à origem de nossa crença. A opção básica: “faça-se a tua vontade”, quando essa vontade interfere e apressa-me desbaratando meus planos, impõe-se a tudo que nos transborda. Nesse sentido, a vida secular e sua atividade convertem-se em exercício de contemplação, porque agora não temos Deus às costas, mas sim que avançamos até em uma espera aberta.  
Fonte:  Teólogo Hans Urs Von Balthasar. Quem é Cristão?, 2004.         

A Religião vê a vida humana num arco eterno


Muitos afirmam que a razão do indivíduo, assim como a Razão Jurídica do estado Liberal moderno, padece de um “déficit motivacional”. A Razão agnóstica vê a vida humana num arco, que vai do útero da mãe até a cova no cemitério. Tudo se resolve no tempo. Nesta perspectiva, a dor, a renúncia, o desespero, a humilhação, a ofensa, não têm significado e devem ser eliminados a qualquer custo. A Religião, ao contrário, vê a vida humana num arco eterno, que vai do momento em que a pessoa foi pensada por Deus até a eternidade feliz com Ele. Nesta perspectiva, tem sentido a provação, a renúncia, a dor temporal, o perdão, a fraternidade, o otimismo.
Postas essas diferenças teóricas, divergem as respostas a determinados interrogativos. Por que comportar-se moralmente quando os cafajestes se dão bem? Por que me humilhar e não revidar? Por que dar, mais que receber? Por que não meter a mão no dinheiro alheio ou público, que será tomado por outro se eu não o fizer? Por que renunciar ao poder e às riquezas às custas dos fracos? Por que visitar os doentes aos invés de ficar no bar?
O crente acha que a religião é indispensável para a formação moral do indivíduo e da sociedade: dispensar Deus na vida moral é uma ousadia inconsulta. A ética religiosa se considera um “capital pessoal” que se traduz em “capital social”: confiança, respeito, cooperação, amizade, troca de doação, fraternidade, esperança no eterno. O homem se torna plenamente moral e se liberta do mal somente em conexão com o Alto.
O não-crente não tem ninguém a quem obedecer, a não ser a sua sobrevivência na sociedade. Ele confia que a Razão é suficiente para fazer do homem um ser moral e inspirar entre os homens atitudes de limite, respeito, independência, justiça, benevolência ou, pelo menos, não-maleficência. O Racionalismo crê que em todas as mentes humanas existe um senso moral comum, que faz convergir as pessoas em regras básicas como, por exemplo, não cometer infanticídio, não mentir, não trair, manter a promessa, dividir os bens. Era esta a esperança de Kant, quando em 1780 lançou o Racionalismo Ético. Mas, funciona mesmo?
Não raro a moral laica mostra sinais de cansaço-desencanto, sem contar que os sucessos morais da Razão nos últimos duzentos anos aconteceram dentro de sociedades já marcadas milenarmente pela moral religiosa. Enquanto isso, a moral religiosa ainda move compactamente multidões. Parece que a Razão é menor que o homem e leva o ser humano até um determinado nível de eficiência moral, cuja ultrapassagem exige uma força vinda de outro lugar. Vinda do Alto?
Fonte: Antonio Marchionni. ÉTICA, a Arte do Bom, 2008. 

2010-06-28

O futebol ensina muito sobre os sentimentos coletivos!



Então, o futebol nos atrai, o Brasil nos conquista! Não sei se o brasileiro está plenamente confiante na nossa Seleção, pois parece que “queremos ver cada jogo para crer” que iremos vencer a partida, de que seremos campeões. É tão doloroso o mata-mata, ou seja, essas fases que se iniciam com as oitavas, depois as quartas de final, as  semifinais e, por fim, a grande final de onde sairá a seleção campeã.

Cada partida o coração fica na mão, a gente sofre, uns gritam, o nervosismo toma conta e as unhas desaparecem, outros bebem demais, uns perdem a voz, outros dizem o indevido com a  mãe dos jogadores e do juiz, dos assistentes, enfim, é um sofrimento cada partida, cada minuto de jogo. Para alguns uma partida de futebol de nossa seleção numa copa do mundo nada significa; para outros, é quase a vida. Uma senhora dizia perto de mim: “Torcer por quê, não ganho nada com isso e mesmo que eles sejam campeões o meu salário não vai aumentar!”. É verdade, ela tem razão, o salário não vai aumentar e, certamente, os problemas do país permanecerão os mesmos, mas não se trata disso, mas da capacidade de viver coletivamente a alegria ou a dor.  Estamos tão centralizados em nós mesmos e procurando motivos para nossas frustrações que uns até torcem pelo time adversário. Que estranho! Pra não dizer: que profunda separação de seus compatriotas, de seu povo, de sua família. Uma contradição!

Chama-nos a atenção o fato de que quando o “adversário”, que nem se quer ainda jogou conosco e vai se destacando, ganhando, então ficamos confusos, com medo e até passamos a achar que eles serão mesmo campeões. Eles podem ser e “até merecem”, mas futebol não é merecimento, é juntar a técnica, a arte, o coração e esperar o resultado de cada partida. Parece que o nosso sucesso depende do fracasso do outro e não do nosso bom desempenho em dar o melhor, em acreditar, em colocar o coração e jogar futebol. Perder, todos perdemos e fracassamos, mas que seja depois de tentar dar o melhor e não por medo antecipado de fracassar. A alegria coletiva, esse contágio, esse clima nas ruas, nas praças, no país, no coração e na alma de cada brasileiro expressam muito de como está também a nossa capacidade de viver o sentimento coletivo. Também o futebol, quando equilibradamente, move a um só sentimento, faz-se escola. Vamos Brasil! Coragem! Nós acreditamos em você, na alegria e na dor!  Vamos vencer!

Antonio Marcos

Infeliz do homem que, na dor, está sem fé!


Ao amanhecer disse Francisco: Que alívio! Escreve Irmão Leão: O clarear do dia é um beijo de Deus. Louvado sejas, meu Senhor, pelo amanhecer: é o fim das dores e tem aparência de esperança. Se não houvesse aurora, sucumbiríamos, sem dúvida, ao desespero. A noite é terrível. Porém, as dores de Francisco não foram aliviadas. 

Ao nascer do sol, veio irmã Clara trazendo caldo de galinha com ingredientes que, segundo ela, haveria de reanimar o doente. O Irmão não tinha vontade de tomar nada. Mas, por cortesia, endireitou-se e começou a tomar, lentamente. Não conseguiu acabar. Vomitou tudo, entre espasmos de dor. Frei Leão foi para um canto chorar. Clara, com lágrimas nos olhos, acomodou o Irmão, ajudou-o a deitar-se e o cobriu. 

Estou crucificado, Irmã Clara, disse Francisco. A dor me morde como um cachorro raivoso e me tritura os ossos. Disse-lhe Clara: “Pai Francisco, que é que eu posso dizer? Tu sabes tudo. Tu nos falaste tantas vezes do Senhor Crucificado”. Ouvindo essas palavras, o Irmão Crucificado abriu os olhos como se estivesse acordado de um letargo. Tens razão, irmã Clara. Por que queixar-me? Como pude esquecer meu Senhor Pobre e Crucificado? Irmão Leão, se nessa noite saiu alguma lamentação de minha boca e a anotaste, apaga-a imediatamente. Não fui um verdadeiro cavaleiro de meu Senhor. Louvado sejas, Senhor, pela irmã dor, companheira inseparável de meu Senhor Crucificado. 

Bendito sejas, meu Deus, continuou, por essa criatura, a dor, de quem todo ser vivente foge. A irmã dor nos purifica, nos solta das amarras terrestres e nos lança nos braços de Deus. Irmão Leão, escreve: Bem-aventurado o homem a quem a dor surpreende armado pela fé e o amor. Será purificado como o ouro e converter-se-á em uma fonte de mérito e vida. Infeliz do homem que, na dor, está desarmado e sem fé. Será certamente aniquilado. Ó meu glorioso Senhor Jesus Cristo, valente companheiro da dor, segura minha mão e faze de mim o que quiseres. 

Pe. Larrañaga. O Irmão de Assis, Cap. VI, A irmã dor, 1986.

2010-06-27

Só me resta o teu amor, Senhor, e ele não me decepcionará!



O mistério de Tua Eleição na vida de uma pessoa, Senhor, ultrapassa-a e foge de todos os esquemas e planos, inclusive, dos que aparentam tão justos e lícitos. O mistério desta eleição vai buscar no escondimento os eleitos, escolhe-os não como melhores em detrimento dos piores, mas por vontade Tua e porque esta é a nossa via de felicidade e a melhor forma de tornar os outros mais felizes. Mas também a tua eleição não estabelece, mas propõe e respeita a mais absoluta liberdade humana. E esta liberdade nos surpreende porque ela pode tomar caminhos diversos, obscuros e comprometer o melhor dos Teus sonhos para nós. Como entender, Senhor, que tenhas colocado em nossas mãos o poder de decidir em seguir ou voltar, amar ou odiar, gerar a vida ou destruí-la? Quão grande é o mistério desta liberdade porque ela nos remete à largura e profundidade do Teu amor por nós.

Mas Senhor, os infiéis também ainda clamam por Ti. Os infiéis também querem ser felizes, mas, por algum motivo, perderam-se ou foram obstinados demais pelo que achavam poder fazer pelas próprias forças. Quantos traziam a sinceridade e uma experiência verdadeira no coração, mas, amaram errado e escolheram errado, não souberam suportar o cadinho da humilhação das próprias faltas ou, talvez, não foram mais considerados dignos pela natureza de suas escolhas, ou ainda essas escolhas se tornaram incompatíveis com o ideal proposto pelo Evangelho. Quantos realmente escolheram buscar a felicidade pela trilha dos próprios enganos, pelas seduções do mundo ou pelas fantasias e feridas que a nossa história nos legou.

Mas Senhor, qual a esperança para com esses teus filhos e filhas? E se te perderem de vez? E se nós não te encontrarmos mais? Senhor, resta-nos Te pedir algo: dá-nos um pouco de perfume para irmos àquela casa em que soubemos que tu lá estás; que tenhamos a graça de entrar na Sinagoga exatamente no dia em que lá fores e então nossos demônios sejam expulsos; que nos levem à Tua presença para que sejamos perdoados de nossos adultérios; que o teu olhar nos encontre outra vez depois que Te negamos; seguindo nossos caminhos incertos, que tenhamos a felicidade de Te encontrar carregando a cruz e sejamos "obrigados" a te ajudar; Ó Senhor, nós que somos os infiéis, não nos deixe morrer sozinhos numa tarde de dor e solidão como qualquer outra, mas que nesta tarde, a nossa tarde, coloquem-te crucificado ao nosso meio. Mas também aí precisaremos da liberdade para te encontrar. Ajuda-me, Senhor, ao menos a te pedir que se lembres de mim e que me conceda tua misericórdia. Se o amor é a vocação fundamental, quero escolhê-la, porque agora só me resta o Teu amor, Senhor, e ele não me decepcionará.

Antonio Marcos

Não acredito que Deus possa revogar uma vocação dada



“Fostes chamados para a liberdade” e a liberdade é o amor (cf. Gl 5,1.13-18). Nós temos medo da liberdade e por isso gostamos muito das leis, porque nos oferecem segurança. As leis são feitas para as pessoas corajosas que também sabem modificá-las, mudá-las quando for necessário. Tanto é fraco e covarde quem desobedece às leis por qualquer motivo como quem as observa mesmo quando prejudicam a vida. Livre é quem não está dominado pelos seus pecados e instintos, aqueles que sabem viver colocando-se a serviço do amor e dos outros. 

Nas leituras deste XIII Domingo do Tempo Comum, encontramos a questão da liberdade, que cresce ao ponto de Jesus nos dizer claramente: “Quem se decide a seguir-me não pode voltar atrás” (cf. Lc 9,51-62). Cristo não voltou atrás, não chegou no meio do caminho que o levava ao calvário e, por medo, voltou.

Por que ter medo e procurar desculpas? Vá em frente. Parrtcularmente, não acredito que Deus possa revogar uma vocação dada; creio que Ele exige fidelidade até o fim, mesmo com derramamento de sangue. Por isso temos os mártires, não só os que doam a vida, mas também os mártires da fidelidade no matrimônio, na vida religiosa, na sacerdotal, etc. São estes os que, embora se sintam doídos por dentro, continuam o caminho da fidelidade e do amor. 

Pe. Sciadini, OCD. – Comentário Pão da Vida, XIII TC – Edições Shalom.

Quando as ligações afetivas são obstáculos ao seguimento de Cristo


Deus diz para Elias: “Levanta-te e unge Eliseu como profeta no teu lugar” (cf. 1Rs 19,16b.19-21). Elias já está no fim dos dias. O povo não pode ficar sem profetas, sem anunciadores da Palavra. Elias consagrou o profeta Eliseu, que foi se despedir dos seus pais e depois voltou para segui-lo. É preciso que aqueles que querem servir ao Senhor de verdade rompam com tudo. As ligações afetivas muitas vezes são um obstáculo ao seguimento de Deus. Muitos não têm coragem de enfrentar o mistério da solidão, do deserto e preferem voltar atrás e não seguir mais Cristo Jesus. Não podemos buscar desculpas para a nossa infidelidade. Só quando Eliseu se coloca a serviço de Elias encontra a sua verdadeira felicidade.

Canta o Salmista: “Ó Senhor, sois minha herança para sempre!” (Sl 16/15). Trata-se do Salmo dos que escolhem Deus como “herança” absoluta. Façamos de Deus o essencial, o centro da nossa vida e dediquemo-nos exclusivamente ao seu serviço, para viver a plenitude do amor. O mundo de hoje está se transformando em um grande supermercado, onde se tem espaço para tudo, onde se busca o que mais agrada. De um lado, sentimo-nos seduzidos por Deus e queremos segui-lo, de outro, sentimo-nos seduzidos pelas coisas, pelas pessoas e não queremos perder a nossa tranquilidade. É necessário coragem para dizer sim e deixar tudo. O que recebemos de Deus é um tesouro que não podemos avaliar. Estamos dispostos a seguir Cristo e a dar tudo por Ele?

Pe. Sciadini, OCD. – Comentário Pão da Vida, XIII TC – Edições Shalom.

O Evangelho não quer acariciar nossos sentimentos



Nada melhor do que sentirmos incomodados quando lemos o Evangelho de Jesus Cristo, porque ele nos obriga a fazer um exame de consciência e a nos converter para nos sentirmos bem com Deus, conosco e com os outros. O Evangelho não tem como finalidade acariciar os nossos sentimentos, mas criar uma verdadeira revolução interior. Procurar caminhos novos, que gerem em nós um estilo de vida que esteja em sintonia com a Palavra de Deus.

Todos nós somos chamados a partilhar participativamente, não teoricamente, a vida de Cristo, passando com Ele através do mistério da Paixão, da Morte e depois viver a plenitude da Ressurreição. Ele nos chama a deixar tudo e seguir os seus passos. Na verdade, o que significa deixar tudo? Não é outra coisa a não ser crer que Deus é para nós tudo e fora dele não há felicidade.

Pe. Sciadini, OCD. – Comentário Pão da Vida, XIII TC – Edições Shalom.

2010-06-26

Que as fraquezas dos nossos amigos não nos desanimem!



As pessoas podem não saber expressarem o cultivo e a presença, mas elas nunca esquecem aqueles que imprimiram nelas experiências autênticas, quem as amaram. Por outro lado, construir relacionamentos é sempre um risco necessário e vital! Mas, uma vez vivendo suas consequências desconfortáveis não queiramos resolver os problemas da vida dos amigos ou mesmo assumi-los para nós. Podemos e devemos ser luzes na vida dos nossos amigos e irmãos, mas cada um precisa superar os seus traumas, frustrações e limites. Deixemos que as pessoas possam crescer e prosseguir na vida.

Se elas não conseguiram amar aqui e hoje, que também possamos motivá-las a não desistirem. Não fiquemos acumulando nos nossos corações frustrações, ressentimentos e culpas. Isso atinge nossa auto-estima e nos prejudica nos novos relacionamentos. Faz parte da escola dos relacionamentos o fracasso e a inconsistência, o desamor e a ingratidão de alguns a quem queríamos tão bem. Jesus que o diga… a “solidão” da cruz, com exceção da presença de Sua Mãe, de algumas mulheres e de João, os outros amigos desapareceram… um deles até o entregou… Que isso não gere desconfiança em nós para com os nossos amigos, mas preocupemo-nos em amar, fazer a nossa parte na dinâmica e no mistério da reciprocidade. Que as fraquezas dos nossos amigos não nos desanimem.

O amor de Deus em nós é maior que toda mesquinhez e ingratidão que alguém possa ter dedicado a nós. “As bondades do Senhor! Elas não terminaram! As suas ternuras não se esgotaram! Renovam-se a cada manhã. Grande é o teu amor, Senhor!” (cf. Lm 3,21-23). Os teus desígnios para amizade são sempre maravilhosos. Amizade é sempre um recomeço porque Deus nunca desiste de nós. Cada dia Ele recomeça no seu amor e na sua misericórdia para conosco!

Antonio Marcos

2010-06-25

Seleção Brasileira e solidariedade, um bom exemplo!




É preciso ver essas coisas e não esquecê-las, mas refleti-las, ainda que o técnico da Seleção Brasileira seja tachado de anti-imprensa: pedir desculpas ao torcedor por seus palavrões! “O torcedor não tem culpa pelos meus problemas pessoais ou por esta e aquela situação desafiante que passamos individualmente”, disse Dunga. Realmente isso faz jus ao lema escrito no ônibus da Seleção de que falamos aqui no primeiro artigo: “Lotado! O Brasil inteiro está aqui dentro!”

Da mesma forma a situação dos nossos irmãos, vítimas das enchentes em Alagoas e Pernambuco, é parte da indispensável responsabilidade de todos, e não somente das autoridades civis e, principalmente, não é hora de gastar energias para se achar um culpado. Essas reflexões ficam para depois da solidariedade e cada um pode fazer alguma coisa. É bonito quando o palco da imprensa divide as atenções entre a alegria do futebol, um novo adversário, um novo jogo, a mobilização de um país inteiro, as grandes concentrações, o clima de felicidade e confiança pela vitória, pelo título, pelos nossos jogadores, mas também é bonito ver essa mobilização pela solidariedade, pelos que perderam tudo, pelos nossos irmãos que estão sofrendo por causa desta catástrofe provocada pelas enchentes e transbordamento dos rios naqueles Estados. Parabéns à CARITAS, à CNBB, REDE GLOBO, ao BANCO DO NORDESTE e a tantas outras Instituições. Mas, de forma particular, parabéns a você que se sente na responsabilidade de fazer a sua parte, ainda que aparente insignificante. 

Acredito que os nossos jogadores saibam do que aconteceu em Alagoas e Pernambuco, com milhares de pessoas que são seus irmãos brasileiros, torcedores. No entanto, impressiona-nos ver como temos uma capacidade enorme de superação porque somos provados nas dificuldades e esperança, essa é a nossa história, não obstante os avanços a partir do voto consciente. Não foi a primeira catástrofe e nem será a última no Brasil. Fiquei pensando na resposta que uma senhora deu ao jornalista quando perguntada sobre o que faria daqui pra frente: “Deus me dê saúde para recomeçar outra vez! Estou viva, e isto é o mais importante!”. 
 
O pedido de desculpas do Dunga por respeito aos torcedores brasileiros mostra, de alguma forma, a co-responsabilidade por uma missão que cabe a todos. Kaká disse numa entrevista coletiva: “É muito importante para nós vermos a confiança e a alegria do torcedor brasileiro. Principalmente, ver a foto de um jogador nas mãos de uma criança hospitalizada. É por essas pessoas que estamos aqui”, concluiu Kaká. É, parece que o Futebol tem muita coisa a nos ensinar. Parece que a Seleção Brasileira, da comissão técnica aos jogadores, está dando sinais de solidariedade. Façamos aqui a nossa, parte não somente como torcedores, mas como membros da grande família de brasileiros da co-responsabilidade e solidariedade. Não seria este o maior título, o amor ao próximo? Tem razão o Kaká: “É por essas pessoas que estamos aqui!”.


Antonio Marcos

2010-06-24

Sim, Deus existe!


Enquanto muitos ateus gastam “energias vitais” numa insistência em querer permanecer na “ignorância de um racionalismo que os desumaniza”, os que creem asseguram que Deus não só existe, mas se encarnou. Viveu conosco, alegrou-se, sofreu, foi condenado, morreu, mas ressuscitou para a glória de Deus e salvação de todos os homens. O Vivente é Deus conosco! Não estamos caminhando às apalpadelas, mas na Luz do Senhor. Somos felizes não porque ”existam dores e sofrimentos” ou ausência deles, mas porque o Amor encheu de sentido o nosso viver. “Amou-nos ao extremo de dar a sua própria vida por nós” (cf. Jo 13,1). Deus é amor (I Jo 4,8).

Sim, Deus existe! O mal e o sofrimento não têm a última palavra. “O limite imposto ao mal é a misericórdia divina”, disse João Paulo II (Memória e Identidade). É necessário outra vez – mais do que nunca – dizer ao homem de hoje o que disse um dos maiores pensadores de todos os tempos e, acima de tudo, um dos homens que mais viveu à procura da Verdade e, felizmente, a encontrou. Deixou que a Verdade transformasse sua vida a partir de dentro e a ela dedicou todas as suas forças, seus dons, talentos, sua inteligência – Santo Agostinho de Hipona: “Expergiscere, homo: quia pro te Deus factus est homo”, “Desperta, homem, porque por ti Deus se fez homem”. Desperta, homem, porque o teu desespero em se recusar a crer já é um grito de socorro: ”Ajudem-me a sair dessa angústia!” Curtir a vida sem Deus não é “provavelmente” ter uma vida infeliz, mas uma certeza inquestionável de que não existe felicidade fora de Deus, e tudo é mesmo uma desilusão quando Deus é excluído da vida, da consciência, da alma, da fé e da inteligência. Sim, Deus existe!

Antonio Marcos

O homem é vocacionado à eternidade!



O mal é certamente um sofrimento na vida do homem e do mundo, é também um mistério. Mistério esse que nem mesmo os autores modernos que, ao escreverem suas considerações sobre o “Deus im-potente”, não dizem tudo. Portanto, o ateísmo que assola o mundo de hoje promove suas campanhas como consequência também de um desespero. Eles também querem encontrar a Deus, querem a Verdade que os satisfaça plenamente.

O Papa Bento XVI (Spe Salvi) fala das características de um ateísmo mudado nos nossos dias: Para o Santo Padre ”O ateísmo virou uma crítica às ações omissas de Deus. Sua existência negada se explica somente porque ele permanece passivo diante da dor e do sofrimento”. O filósofo humanista Martin Buber, nas suas considerações acerca do axioma do filósofo existencialista ateu, Sartre (”Deus está morto, ele nos falou e agora se cala;o que tocamos é apenas seu cadáver”), parece querer nos dizer que, de fato, “Deus está escondido porque o coração e a fé não o procuram mais, mas uma razão doentia, orgulhosa; uma liberdade que não quer amá-lo, mas apenas satisfazer suas especulações e sede de conhecimentos”. Diz Buber: “O Deus vivo não é apenas um Deus que se revela, mas também um Deus que se esconde”.

O homem não é uma “tábua rasa” (segundo o empirismo de Locke), onde o processo do conhecer, do saber e do agir só se desenvolve pelo aprendizado mediante a experiência. Tudo começaria e terminaria somente aqui. Mas não, o homem é projeto de Deus. Tem uma missão, uma responsabilidade e uma vocação nesta vida. O homem é vocacionado à eternidade, seja ela a salvação ou a condenação. Sua liberdade com suas escolhas o decidirão. A vida do homem foi querida por Deus e dotada de liberdade, vontade e inteligência. Esta vida é, inconfundivelmente, marcada pela necessidade de amar o seu Criador e uns aos outros. O homem é histórico, mas tem raízes e origem no Ser divino, que é Deus. Traz ele as marcas biológicas e genéticas, e precisa construir sua história, seu presente e seu futuro sem ter como assegurá-lo como definitivo porque é finito. Faz isso não só mediante a “experiência”. Há uma vida interior a se desenvolver e é ulterior ao que vemos, tocamos e experimentamos.
Antonio Marcos

A fé não é amuleto, mas participação na vida divina!


É fácil adquirir certa capacidade intelectual – que é característica do ser humano, ser alguém que pensa, que questiona, que pergunta, que quer aprender e crescer - e, no entanto, ao atingir a “idade da razão” passa a se sentir o “dono da verdade”. E o pior, estas pessoas veem-se no direito de massacrarem a consciência religiosa das pessoas mais simples. Esta consciência religiosa e, sobretudo a fé, não é algo inventado pela Igreja, pelas áreas do cérebro como quer “dogmatizar” a neurociência, mas faz parte intrinsecamente da vida do homem, seja ele quem for. A fé é dom de Deus que requer uma resposta livre de amor do homem, porém, resposta inteligente, pensada e amadurecida; mas que permanece simples, num coração de criança e não onde reina a soberba e o desespero.

Mesmo quando o homem faz a experiência da dor e do sofrimento e se agarra à fé, esta não é um amuleto, mas participação na vida divina. “A fé é o ato mais nobre e inteligente da vida do homem”. Ela garante-lhe aquela porção de certeza de que sua vida não tem sentido fora do ato de crer. “Cremos como cristãos, não por uma concepção social ou uma reunião ética, mas pelo encontro com a pessoa de Cristo”, diz o papa Bento XVI.

Não pensemos que no final haverá uma “anistia”, onde todos serão colocados na mesma medida da balança. Não, isso não acontecerá! A misericórdia de Deus é também justiça. Dizer que no final todos se salvarão é dizer que a redenção foi mesmo um “grande teatro”. Jesus teria brincado de morrer só para dizer: “Fiz algo aparente para dizer que vocês não tenham medo de morrer”. A idéia de que Jesus, o Filho de Deus, apenas brincou de morrer, foi sustentada pela ”heresia nestoriana”. Aqui sim, seria uma tragédia! A cruz não foi teatro, muito menos tragédia, embora Jesus verdadeiramente tenha sofrido e morrido, mas foi vitória da vida sobre a morte, libertação do jugo do pecado.

A cruz foi amor! Esta verdade não consiste numa apologia da dor e do sofrimento, isso seria loucura, como bem diz o papa João Paulo II (Memória e Identidade): “O limite do poder do mal, a potência que, em última análise, o derrota. Assim ele nos diz: “O sofrimento de Deus crucificado não é apenas uma forma de sofrimento ao lado das demais… Cristo, sofrendo por todos nós, conferiu um novo sentido ao sofrimento, introduziu-o numa nova dimensão, numa nova ordem: a do amor… A paixão de Cristo na Cruz deu um sentido radicalmente novo ao sofrimento, transformou-o a partir de dentro… É o sofrimento que arde e consome o mal com a chama do amor… Cada sofrimento humano, cada dor, cada enfermidade encerra uma promessa de salvação… O mal… existe no mundo também para despertar em nós o amor, que é dom de si… a quem é visitado pelo sofrimento… Cristo é o Redentor do mundo: “Fomos curados pelas suas chagas” (Is 53, 5)”

AntonioMarcos

2010-06-22

Tu te tornas aquilo que contemplas!




Diante da beleza dos espaços sagrados somos envolvidos no mistério, recordamos que somos a mais bela de todas as obras e nos maravilhamos com a beleza da vida de Deus em nós. Deus nos escolheu como morada porque nos ama, simplesmente porque nos ama. Quando o nosso espaço está manchado pelo pecado, é a sua misericórdia que faz voltar ao nosso coração e à nossa alma a graça da filiação divina.

Contemplando o belo eu me recordo do coração do homem de hoje que cada vez mais é seduzido pelas falsas imagens que, por sua vez, arrancam dele a inocência e a pureza dos pensamentos, do coração e da alma. O mundo tem necessidade de contemplar o Belo, ainda que não admita. Deus não é qualquer beleza, mas o Belo e a fonte de toda beleza. Maravilhamo-nos com o ressurgir de uma liturgia na Igreja capaz de atrair ao Belo e resplandecer a Obra da Criação.

“Como seria um mundo no qual esgotasse a beleza causada pela fé?” Diz o Papa Bento XVI. A beleza litúrgica nos conduz à festa real. Não há beleza aí onde não está Deus, seu amor, sua amizade. Ele é a beleza de que o coração e os olhos do homem têm necessidade maior, porque Deus é belíssimo, “super-pulcher”, diz São Tomás de Aquino. Fonte primeira e medida ordinária de toda beleza é Deus. De fato, “a beleza que através das almas se transmite às mãos do artista provém daquela beleza que arrasta as almas, pela qual minha alma suspira dia e noite” (Agostinho, Confissões X,34,53).

Quem ama é criativo na expressão do amor, não o deturpa, não o machuca. “A beleza da festa litúrgica favorece o resplendor da glória de Deus” (Moysés Azevedo). Grande sabedoria é aprendermos a resplandecer com o testemunho de nossas vidas e de nossas celebrações a beleza da fé, a beleza da Igreja, do Evangelho, da Caridade e da unidade.

Ajudemos a tirar os nossos jovens da embriagues de imagens vazias e alienantes, que não redimem, mas escravizam. “Tu te tornas aquilo que contemplas”, diz João Paulo II. Dar testemunho do Belo é também viver a esperança e a alegria, a força do nosso batismo na missão da Evangelização. O Papa Paulo VI costumava dizer que somos para muitos a “única página do Evangelho a ser lida”. O mais admirável testemunho do Belo nos dá as Sagradas Escrituras: “O que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos, e o que nossas mãos apalparam do Verbo da vida (…) vo-Lo anunciamos” (I Jo 11-4). Eis a beleza de Deus que se tornou palpável!

Imagens: “Capela da Casa Geral - Comunidade Católica Shalom –  Diaconia Geral – Projetos  e Iconografia:  Assessoria Litúrgico-Sacramental."
Antonio Marcos

2010-06-21

Sartre e Madre Teresa: quanta diferença!



Somos felizes na vida quando damos sentido aos fatos da vida e à vida por inteiro. O que é o sentido? Sentido é direção. Direção para uma meta. Direção que dá significado à ação. Sentido capaz de responder à pergunta: “Para onde? Por que Para quê? Para onde vais?” Estás indo para uma vida significativa ou uma vida qualquer, uma vida ordenada ou uma vida Caótica, uma vida somente terrena ou uma vida terrena e eterna? Para onde este pensamento ou fato pode te levar, para onde aquele outro?

A insignificância da vida é o oposto da felicidade. Não faltam escritores que proclamam uma vida sem sentido, uma vida jogada por acaso no universo, uma vida como lata vazia sacudida e revirada pelas águas turbulentas do rio. Neste caso, alguém pode até conviver com a falta de sentido, vivendo a jornada, venha o que vier, resignado às forças caprichosas da matéria cruel. Via de regra, porém, o vazio de sentido acarreta dores psicológicas de depressão e a angústia, opostas ao otimismo alegre. Pesquisas afirmam, por exemplo, que as pessoas casadas, com exercício da carícia [sentido positivo do carinho] vivem 12% a mais que as solteiras. Alguns escritores, como Sartre, viram a vida como um esgoto repleto de animais imundos e sem saída, no qual só resta vagar e debater-se até a loucura: a vida não passaria de um aglomerado de absurdidades, egoísmos, interesses, instintos, insignificâncias. Outros, como Madre Teresa de Calcutá, viram na vida uma aventura de amor.

A plenitude feliz consiste na entrega de si a um ideal, isto é, uma ideia-guia, um projeto nobre a ser alcançado com paixão e afinco. Revolucionários e santos, inventores e gurus, filantropos, exploradores e missionários, ficaram atraídos por um ideal, que deu sentido e direção às suas vidas. Por isso, a humanidade os eleva e os relembra em monumentos e datas.
No file “Agonia e Êxtase”, Michelangelo renunciou ao amor por uma mulher e, pintou por anos o teto da Capela Sistina. No dia da inauguração, a mulher que o amava e não foi correspondida lhe diz: “Agora entendo por que você não se ligou a mim. Você colocou nesta obra um amor maior que qualquer amor entre um homem e uma mulher”. Michelangelo ficou tomado por um ideal perseguido com luta (agonia) e vibração (êxtase). “Ama, e faze o que queiras: se te calares, calar-te-ás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor: uma vez que a raiz do amor está dentro de ti, desta raiz não pode sair se não o bom” (Santo Agostinho, In Ioannem, 8).

Fonte: Antonio Marchionni. Ética, a arte do bom, 2008.