2010-05-09

Só o amor nos faz perceber a luz no outro

Estamos diante de um contexto cultural em que temos que nos esforçar para “pensar”, se assim o quisermos viver na luz dos valores que evidenciam a dignidade humana. É verdade que as circunstâncias e muitos acontecimentos poluem a mente e a concentração. Como diz a linguagem administrativa: “Temos que gerenciar o nosso pensamento”. Quando organizamos e processamos coerentemente e sensatamente o pensar, o falar e o agir, nossa vida então se desloca para um fim bom, para um destino maior do que nós, pois o Bem não pode ser condicionado aos fatos históricos e aos acidentes da vida pessoal.

No entanto, pensar e falar exigem muita sensatez e a análise das condições de possibilidades. Pensar, falar e agir são processos que exigem muito de nós, mas quando operados na sensatez, abundantes são os frutos. É verdade que em muitos ambientes em que nos encontramos, nem sempre aquela é a hora para falar o que pensamos, mas é necessária a prudência e a espera da oportunidade. Isso porque não é sábio quem pensa que tem de dizer o que pensa na hora que quer e como quer. Isso gera muitos problemas, constrangimentos e pode humilhar as pessoas. Quem de nós não já cometeu isto? Quem de nós pode dizer que está isento de tal erro e precipitação? Muito mais quando identificamos em nós aqueles limites de temperamento e as marcas da nossa história ainda não totalmente iluminadas e curadas. Sabiamente nos ensina o Livro do Eclesiástico: “cada coisa tem o seu devido tempo”.

Uma grande expressão ética civil hoje, como também da caridade, é a tolerância, no sentido positivo do termo. Ela é uma condição para a convivência, pois se nos arvoramos em querer ser os únicos conhecedores da verdade, então é mais provável que venhamos a cair no isolamento, no fechamento e no fundamentalismo. Isso jamais significa tornar nossas convicções relativas ou passivas de mudanças conforme os outros pensam ou a circunstância social. Também não significa que a Verdade foi tragada pelas “verdades”. O que aqui me refiro é dessa falta de abertura para escutar o diferente. Muitas vezes, antes de escutarmos as angústias ou as esperanças dos outros já queremos impor o que pensamos. E o pior, se não pensa como eu ou não se junta a mim, então se torna um inimigo, deve ser rejeitado e destruído.

Não podemos manipular as consciências das pessoas, mas ajudá-las a exercerem a liberdade, dom de Deus. Depois do enfoque moderno antropocêntrico, a era contemporânea fala da “história.” O homem está na história, tem seus condicionamentos, suas labutas, perguntas e suas esperanças. Suas convicções sofrem influências, mas este homem não pode ser escravo delas. O que insere este homem nas outras realidades é a relação consigo mesmo, com a natureza, com os outros e com Deus. O que salva o homem da sua prisão individualista é a convivência.

Nós cristãos temos uma missão ímpar nesta história. Tudo o que a nossa fé construiu na história continua também resposta para o hoje, e é claro, isso de faz dentro de uma hermenêutica que corresponda às necessidades de hoje. Não obstante as formas diferentes de pensar, há um vínculo comum entre nós: a Caridade de Cristo. “O amor é o vínculo da perfeição”, diz o apóstolo Paulo (Cl 3,14). Somente pelo amor de Deus podemos outra vez chegar aos confins do mundo, sermos testemunhas da unidade, sermos presença e sinal de paz e reconciliação para o homem de hoje.

O amor de Deus também nos ensina o que é a tolerância: amar além das fraquezas e “maneira de pensar dos outros,” acolher o diferente, mas sem nunca deixar de transbordar a alegria atrativa e feliz que é a incomparável vida cristã. Não precisamos esquecer e mesmo omitir o que somos, nossa identidade, mas aprendermos a perceber a luz também no outro, por mais diferente que seja. Esse testemunho inquieta e atrai, estimula o pensamento existencial dos outros. O amor, somente o amor nos faz perceber a luz no outro!

Antonio Marcos

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