2010-05-06

A paixão sobrevive de pressas; o amor de demoras.

Estamos cada vez mais inaptos para vínculos duradouros. O que parece prevalecer é o desejo incontido de paixões avassaladoras, sentimentos à flor da pele, novidades constantes. É nesse emaranhado de encontros e desencontros, de chegadas e partidas, que o amor e a paixão mostram a sua face. É curioso, mas também me perco na tentativa de estabelecer limites conceituais entre amor e paixão. Tenho intuído que nisso mora a diferença: a paixão sobrevive de pressas; o amor de demoras. A paixão é um fogo alimentado pelo álcool. Queima rápido. O amor parece ser fogo a lenha. Tem ritmo diferenciado.

As relações humanas precisam voltar a ser artesanais. A revolução industrial nos legou a produção em série. Levamos a sério o aprendizado. Deixamos de ser artesanais em quase todos os aspectos da vida. Tenho saudades dos velhos teares, onde a trama das linhas nos presenteava com resultados surpreendentes. A trama final nascia de mãos afeitas a trabalhos de minúcias. O amor é o maior de todos os artesanatos. Não amamos da noite para o dia. O amor é construção que requer empenho, assim como a trama dos teares requer demora na escolha faz linhas e cores.

Gosto de compreender o amor como eleição. Alguém que até então estava perdido no meio da multidão foi eleito. Tornou-se sagrado, saiu do contexto que era de todos e agora desfruta de um horizonte. Na teologia, trabalhamos o tempo todo com o conceito de sagrado. É tão sugestivo. É sagrado tudo aquilo que foi recolhido do espaço profano para ser apresentado sobre o altar do sacrifício. O profano, isto é, o que estava fora do templo, foi eleito, recebeu sagração, tornou-se outro, foi elevado, constituído em dignidade irrevogável.

Quem dera as pessoas se amassem assim. Quem dera as pessoas pudessem compreender e experimentar o amor a partir desse comprometimento conceitual. Tenho medo de passar pela vida sem verdadeiramente experimentar os desdobramentos mais salutares de minha capacidade de amar. Vejo as pessoas tão perdidas em suas paixões, tão fadadas ao destino trágico da solidão. Os apaixonados, isto é, os que sofrem de paixão, nem sempre chegam ao final. Perdem-se antes do término. Morrem na travessia. A paixão não costuma ter planos para o futuro. É pragmática. Já os amorosos não se limitam ao tempo presente, mas estabelecem metas que possam durar a vida inteira. Os apaixonados nem sempre são portadores de ovários férteis, tampouco costumam estar grávidos de um futuro que os faça driblar a sedução da morte prematura.

Pe. Fábio, Mestre em Antropologia Teológica, Cartas entre Amigos, 2009.

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