2010-05-31

Ontem eu me lembrei de “A Cabana”


Todo cristão católico deveria ao menos saber que a doutrina da Trindade é uma marca essencial da identidade cristã. Afinal de conta fomos batizados em nome da Santíssima Trindade e o Seu sinal é traçado todos dos dias sobre nossas frontes quando saímos de casa e quando passamos em frente uma igreja ou quando rezamos. Depois da tão popularizada literatura de A Cabana, lida por milhões de pessoas em todo o mundo e que ainda não saiu de moda (pelo menos no Brasil), ou seja, continua sendo pauta de comentários tanto entre os críticos e exigentes leitores, como entre os jovens mais acostumados com o livro-polêmica da vez, este tema parece ter ficado mais popular, talvez não compreendido na sua limpidez de significado.

Enquanto meditava sobre o Mistério da Santíssima Trindade, recordei-me que este tema é central nas discussões de A cabana. Todos que o leram sabem do que estou falando: a forma surpreendente como a Santíssima Trindade é manifestada, fez dos personagens (Papai, Jesus e Sarayu) o centro da polêmica. Afirma Randal Rauser (Teólogo Batista, EUA, na sua obra: “Encontre Deus na Cabana”): “Embora A Cabana tenha angariado abundantes elogios, também conseguiu provocar sua parcela de controvérsia. Sem dúvida, o elemento isolado mais surpreendente no livro é a revelação de Deus como ‘Papai’, uma negra enorme que dá grandes abraços e balança os quadris quando escuta música. Aumenta a surpresa o fato de o Espírito Santo surgir como uma misteriosa mulher asiática chamada Sarayu. Para completar esta revelação desconcertante, a certa altura Mack é interrogado por uma misteriosa personagem feminina chamada Sophia, posteriormente descrita como a sabedoria de Deus”.

Os críticos católicos também ficaram alarmados por estas imagens. Não obstante a inteligência (também teológica) com que o texto foi escrito, logo se percebe margens para identificar idéias feministas, modalistas e outras que contradizem a doutrina oficial da Igreja sobre o Mistério da Santíssima Trindade. Também é verdade que muitos críticos não católicos entraram em defesa de A Cabana. Eles dizem que não pretendem desafiar ou relativizar o ensinamento do Magistério, embora não estejam submissos a ele. O que pretendem é apenas mostrar o que há de coerência teológica nesta obra e as possíveis interpretações, na intenção de não considerar o livro uma Heresia, pelo menos não sendo motivado por uma leitura superficial e pelo preconceito, mas que se tenha a capacidade das “duas asas” (Fé e a Razão), a liberdade e a abertura para dialogar sobre as “acomodações de Deus” nesses tempos de ateísmo-agnóstico, de um deus pessoal individualista e da quebra de paradigmas religiosos, nesses tempos onde a psicanálise e a ciência genética parecem desafiar as antigas e sólidas convicções de fé nos mistérios de Deus e na Sua própria identidade como divindade que governa o mundo e o homem.

Eu me lembrei de A Cabana não só por causa da sua leitura ou da reflexão inteligente do teólogo batista, Randal, mas dessa falta de intimidade e inteligência teológica para se falar com entusiasmo sobre esse mistério aos corações dos homens e mulheres de hoje, pelo menos aos poucos que ainda vão à Missa. Eu me lembrei de A Cabana pelo fato de tantas homilias não dizerem simplesmente nada, mas se resumirem em vazios de quem, talvez, perdeu essa amizade divina e ainda pensa que é suficiente “dizer que é dogma e que por isso não se questione, mas acredite e papo encerrado!”. Isto de fato torna o dogma um peso, o que não o é na sua essência. Mas não se trata de “crer simplesmente”, mas de traduzir esse mistério de amor na vida das pessoas e nos seus contextos alegres e dolorosos, de céu e inferno. Não são poucos os que hoje procuram “Cabanas” para dialogar com Deus sobre suas perdas e infelicidades, seus remorsos e revoltas, ainda que tracem todos os dias o sinal da cruz e digam sorrindo, amém.

Percebo que A Cabana desafia essa realidade, embora isso não a torne redimida em suas controvérsias. Mas é verdade que a Santíssima Trindade precisa voltar para a cabana de nossa intimidade se queremos comunicar aos outros o quanto é belo e simples este mistério de amor. Santo Agostinho compreendeu isso no diálogo com aquela criança na praia. Entender não é o mais importante, mas conhecê-lo dentro de mim e traduzir com a vida. “Ó Beleza antiga e sempre nova. Eis que estavas dentro e eu fora!”. O Padre na missa de ontem começou a homilia dizendo assim: “Vamos começar falando de como está o nosso amor a Deus e ao irmão, caso contrário, vocês não compreenderão o mistério da Santíssima Trindade, comunhão de amor! Eu disse para mim: que interessante! Isso é entrar nas cabanas frias de tantos corações racionalistas que estão aqui, talvez o meu seja um deles. Então eu me lembrei de A Cabana!

Antonio Marcos

Um comentário:

  1. maravilhoso!Lindo,perfeito,belo,radiante,forte,é graça,sensacional,nota 1000,chocante,tocante,profundo..

    só conseguir lembrar esses adjetivos p dizer q tdos seus artigos são tds tão bons!mas existem mais adjetivos vio..
    rsrs

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