2010-05-26

O que nos enfraquece não são os escândalos, mas o câncer ideológico!

Recebi por email nesses últimos dias uma partilha de vida de uma pessoa (uma mulher) casada, cristã católica, residente numa determinada metrópole onde é sede de uma Arquidiocese, que ama a sua Igreja e que, exatamente por isso, quis melhor conhecer a sua fé, estudando a doutrina na academia, conhecendo um pouco mais da beleza dos mistérios que o tesouro do depósito da fé católica conservou ao longo dos séculos como um altíssimo dom de Deus, sinal do seu cuidado e da sua providência em tudo fazer para que o homem o conheça e seja salvo em Jesus, mediante a Igreja, seu corpo místico.

No entanto, relatou-me esta minha irmã, que tamanha foi a sua decepção ao se deparar neste determinado ambiente de formação católica acadêmica, com o que jamais esperava, um ambiente secularizado e desfigurado da real missão de formar os católicos na solidez da fé, no mistério da Palavra de Deus, na vida sacramental, nas verdades de fé e nas discussões sadias que a teologia proporciona no processo da maturação da fé. Transcrevo abaixo a confissão desta minha irmã e que muito me impressionou e fez dolorido o meu coração.

“Nesta Instituição de Formação Católica, Antonio Marcos, tive contato com o desrespeito aos símbolos católicos e com o materialismo travestido de verdade científica que explica e mostra que nós cristãos somos débeis mentais em acreditar em coisas tão óbvias. Deus uno? mera criação do homem... Bíblia inspiração divina?.... só você ainda acredita nisso. Jesus?... homem comum, de divino não tem nada, um revolucionário!... milagre?... só na ação do homem... eucaristia?... conversa inacreditável... ressurreição?... pior ainda! Cursei duas disciplinas até o professor afirmar, textualmente, ‘eu aqui sou um dos poucos que acredita em Deus uno.’ Com essa eu pedi desligamento do curso, mas antes tive que ouvir do coordenador, durante nossa conversa, que era questionável a inspiração divina nos textos bíblicos. E essa modernidade contamina, pois um casal amigo veio com esse papo, daí eu perguntei a ele: então você vai para missa para louvar um revolucionário? um homem comum? Cadê a coerência? Quase perco um amigo! Vejo que o que nos enfraquece não são os escândalos, pois logo passam, o jornal esquece. O que nos enfraquece é o câncer ideológico em nossos órgãos vitais.”

Realmente é de sofrer, não é verdade? Mas quero deixar claro que estudar a teologia continua sendo uma das mais felizes experiências acadêmicas. Sou testemunha da minha experiência, não obstante os muitos desafios que também tenho encontrado. No entanto, é preciso que se diga que lamentamos esta secularização em alguns órgãos da própria Igreja, lugar onde se deve por excelência cultivar a clareza da fé, como também desta secularização na cabeça de tantos formadores católicos de opinião, colaboradores no processo de levar as consciências a uma maturação da fé. Essa desfiguração atinge de cheio os novos evangelizadores. Como estes então, não convictos e mal formados, poderão ensinar aos homens de hoje a beleza e a sempre novidade do cristianismo e da fé católica?

Lembramos que são claras as recomendações da Santa Igreja quanto à formação acadêmica dos seminaristas e do Povo de Deus. Ensina-nos o Concílio Vaticano II: “A formação dos alunos depende de leis sábias ,e sobretudo de educadores idôneos (...) As disciplinas teológicas sejam ensinadas à luz da fé e sob a direção do magistério da Igreja, de tal forma que os alunos venham encontrar com exatidão a doutrina católica na Revelação divina, penetrem-na profundamente, dela façam alimento de sua vida espiritual e se tornem capazes de a expor, defender e a anunciar (...)” (OT, 8.16).

Concordo com minha irmã que “o que nos enfraquece não são os escândalos, pois logo passam, o jornal esquece. O que nos enfraquece é o câncer ideológico em nossos órgãos vitais.” Concluo esta reflexão com as palavras magistrais e proféticas do papa Bento XVI, ditas aos representantes do mundo da cultura em Portugal e aos Bispos, por ocasião da sua visita a esta nação, neste mês de maio, 2010: “A fidelidade à pessoa humana exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. O que fascina é sobretudo o encontro com pessoas que creem, e que, pela sua fé, atraem para a graça de Cristo dando testemunho d’Ele”.

Rezo e peço que rezemos pelos nossos professores católicos, como também pelos pregadores e catequistas, pelos presbíteros e pelos educadores, para que eles e nós sejamos conscientes da responsabilidade da imensa graça de ensinar com fidelidade e amor o tesouro e a beleza da nossa fé católica. No entanto, diante de tais situações temos de responder com o testemunho de vida e com o diálogo inteligente e, sem dúvida, fazendo a nossa parte no esclarecimento e na colaboração de como pensa o Evangelho e a Igreja. Que a nossa vida dê testemunho das razões de um coração que crer sem confusão, sem tristeza e sem medo de mostrar aos outros que vale a pena crer, que vale a pena ser católico e que vale a pena o risco e a coragem para anunciá-Lo. Olhando para as nossas vidas a fé de muitos "pequeninos do Senhor" não se perderá, mas voltará a encontrar o rosto de Cristo na Igreja e nos seus ensinamentos.

Antonio Marcos

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