2010-05-17

A cultura do aprendizado e a assimilação existencial

Temos visto os avanços na área da educação, sem dúvida, mas nos perguntamos sobre a qualidade do aprendizado de nossos alunos. Penso que o que falta mesmo é a cultura do saber, do hábito da leitura com gosto e sabor, da curiosidade acadêmica, da pesquisa, do exercício do pensamento e da reflexão, e o hábito de escrever, ainda que seja somente para nós. Os diários de outrora ainda facilitavam esse processo, mas hoje não os temos mais, pelos menos na maioria dos adolescentes e jovens. Claro, particularmente nunca usei diário, mas conheci homens que usaram e mesmo assim não se tornaram confusos na identidade sexual. Não escreviam necessariamente o que faziam durante o dia, mas registravam suas anotações pessoais acerca do que sentiam, percebiam e descobriam naquele dia ou no espaço de tempo. Muitos despertaram a arte da poesia e da escrita como dons e até como profissão. Outros amaram fazer essa experiência de registrarem suas emoções e percepções, vindo a conhecerem um pouco mais de si, dessa psicologia fascinante do universo da mente, do coração e da alma humana.

Lamentamos o fato de não conhecermos mais a nossa língua e estarmos com preguiça de pensar e escrever. Preocupamo-nos tanto em aprender uma língua estrangeira, o que é salutar e indispensável, mas já não nos interessamos em escrever bem e falar corretamente a nossa língua. As pesquisas mostram que os nossos vestibulandos escrevem barbaridades nas redações dos exames e que pessoas de referência no saber falam de forma errônea no que é básico. Muitos deles vieram de escolas privadas e por todo o período inicial estudaram em boas condições de aprendizado, ou seja, tiveram mais oportunidades na vida, mas aproveitaram pouco. A necessidade de simplesmente se formarem e ganharem a estabilidade econômica, empobrece parte significativa de nossos alunos. Por outro lado, o mundo digital tem provocado profundas transformações no processo do aprendizado. As faculdades da memória e da imaginação foram prejudicadas. Apenas com um botão descartamos o que não nos interessa mais. Resolvemos o problema da nossa caixa de entrada cheia simplesmente deletando os arquivos. Consequentemente, quando isso é traduzido para a vida fora da internet, a memória histórica da nossa existência fica prejudicada. Isto, evidentemente, se dá também na cultura religiosa, no aprendizado e exercício da assimilação da fé e da doutrina, ou seja, cremos e rezamos, mas não sabemos as razões de nossa fé e não conhecemos o conteúdo daquilo que cremos.

Seja na educação ou na religião, não falo aqui de uma cultura erudita ou de termos de ser mestres nos conhecimentos da fé, pois, pelos menos para a mística cristã, isto não é o mais importante. Saber não tem sentido se não há vida, mas é também importante conhecer as razões da nossa fé. Falo, na verdade, de uma cultura do aprendizado e da assimilação cotidiana e existencial da vida. Isto influencia diretamente a arte do saber relacionar-se, a busca dos valores duradouros e a capacidade de tomar decisões refletidas, não sustentadas pela emoção, mas pelo bem e pela verdade dos fatos. Quem faz esse processo de aprendizado existencial consegue viver a vida na santa inquietação de não acostumar-se com o mal e com todo tipo de agressão à dignidade humana. A cultura do aprendizado é uma necessidade, e ela se faz em conjunto, pois “aprendo com os outros”, como dizia Paulo Freire. Tal necessidade encontra o seu núcleo quando a assimilação da existência dá um novo contorno na nossa maneira de pensar, falar, escrever, crer e rezar.

Antonio Marcos

Um comentário:

  1. Como profissional da área da educação, quero aqui confirmar a necessidade urgente da cultura da leitura e da pesquisa, cada dia os nossos jovens usam menos a sua capacidade inventiva, e também afetiva. De dificuldade para interpretar um texto e interpretar um relacionamento. è urgente conhecermos nossa lingua, nossa fé, nossos amigos.

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