A Igreja se seculariza quando reduz a fé à medida humana

Cardeal Robert Sarah adverte: a secularização entra na igreja quando deixa de propor uma fé fundada na revelação de Cristo para reduzi-la às exigências e à mentalidade do homem moderno.

Viver a difícil liberdade

Nestes nossos dias muito se fala de liberdade, seja de expressão, de opinião, sexual, afetiva ou financeira.

Sobre os Felizes

Olá, amigos e amigas leitoras, estamos de volta! Partilho com vocês esta Coluna me enviada no WhatsApp por uma amiga.

Namoro: escola de aprendizados felizes, apesar dos desafios

Partilhar a vida a dois é um anseio do coração humano, uma vocação, uma vivência que passa por muitas experiências de aprendizado...

2010-05-31

Ontem eu me lembrei de “A Cabana”


Todo cristão católico deveria ao menos saber que a doutrina da Trindade é uma marca essencial da identidade cristã. Afinal de conta fomos batizados em nome da Santíssima Trindade e o Seu sinal é traçado todos dos dias sobre nossas frontes quando saímos de casa e quando passamos em frente uma igreja ou quando rezamos. Depois da tão popularizada literatura de A Cabana, lida por milhões de pessoas em todo o mundo e que ainda não saiu de moda (pelo menos no Brasil), ou seja, continua sendo pauta de comentários tanto entre os críticos e exigentes leitores, como entre os jovens mais acostumados com o livro-polêmica da vez, este tema parece ter ficado mais popular, talvez não compreendido na sua limpidez de significado.

Enquanto meditava sobre o Mistério da Santíssima Trindade, recordei-me que este tema é central nas discussões de A cabana. Todos que o leram sabem do que estou falando: a forma surpreendente como a Santíssima Trindade é manifestada, fez dos personagens (Papai, Jesus e Sarayu) o centro da polêmica. Afirma Randal Rauser (Teólogo Batista, EUA, na sua obra: “Encontre Deus na Cabana”): “Embora A Cabana tenha angariado abundantes elogios, também conseguiu provocar sua parcela de controvérsia. Sem dúvida, o elemento isolado mais surpreendente no livro é a revelação de Deus como ‘Papai’, uma negra enorme que dá grandes abraços e balança os quadris quando escuta música. Aumenta a surpresa o fato de o Espírito Santo surgir como uma misteriosa mulher asiática chamada Sarayu. Para completar esta revelação desconcertante, a certa altura Mack é interrogado por uma misteriosa personagem feminina chamada Sophia, posteriormente descrita como a sabedoria de Deus”.

Os críticos católicos também ficaram alarmados por estas imagens. Não obstante a inteligência (também teológica) com que o texto foi escrito, logo se percebe margens para identificar idéias feministas, modalistas e outras que contradizem a doutrina oficial da Igreja sobre o Mistério da Santíssima Trindade. Também é verdade que muitos críticos não católicos entraram em defesa de A Cabana. Eles dizem que não pretendem desafiar ou relativizar o ensinamento do Magistério, embora não estejam submissos a ele. O que pretendem é apenas mostrar o que há de coerência teológica nesta obra e as possíveis interpretações, na intenção de não considerar o livro uma Heresia, pelo menos não sendo motivado por uma leitura superficial e pelo preconceito, mas que se tenha a capacidade das “duas asas” (Fé e a Razão), a liberdade e a abertura para dialogar sobre as “acomodações de Deus” nesses tempos de ateísmo-agnóstico, de um deus pessoal individualista e da quebra de paradigmas religiosos, nesses tempos onde a psicanálise e a ciência genética parecem desafiar as antigas e sólidas convicções de fé nos mistérios de Deus e na Sua própria identidade como divindade que governa o mundo e o homem.

Eu me lembrei de A Cabana não só por causa da sua leitura ou da reflexão inteligente do teólogo batista, Randal, mas dessa falta de intimidade e inteligência teológica para se falar com entusiasmo sobre esse mistério aos corações dos homens e mulheres de hoje, pelo menos aos poucos que ainda vão à Missa. Eu me lembrei de A Cabana pelo fato de tantas homilias não dizerem simplesmente nada, mas se resumirem em vazios de quem, talvez, perdeu essa amizade divina e ainda pensa que é suficiente “dizer que é dogma e que por isso não se questione, mas acredite e papo encerrado!”. Isto de fato torna o dogma um peso, o que não o é na sua essência. Mas não se trata de “crer simplesmente”, mas de traduzir esse mistério de amor na vida das pessoas e nos seus contextos alegres e dolorosos, de céu e inferno. Não são poucos os que hoje procuram “Cabanas” para dialogar com Deus sobre suas perdas e infelicidades, seus remorsos e revoltas, ainda que tracem todos os dias o sinal da cruz e digam sorrindo, amém.

Percebo que A Cabana desafia essa realidade, embora isso não a torne redimida em suas controvérsias. Mas é verdade que a Santíssima Trindade precisa voltar para a cabana de nossa intimidade se queremos comunicar aos outros o quanto é belo e simples este mistério de amor. Santo Agostinho compreendeu isso no diálogo com aquela criança na praia. Entender não é o mais importante, mas conhecê-lo dentro de mim e traduzir com a vida. “Ó Beleza antiga e sempre nova. Eis que estavas dentro e eu fora!”. O Padre na missa de ontem começou a homilia dizendo assim: “Vamos começar falando de como está o nosso amor a Deus e ao irmão, caso contrário, vocês não compreenderão o mistério da Santíssima Trindade, comunhão de amor! Eu disse para mim: que interessante! Isso é entrar nas cabanas frias de tantos corações racionalistas que estão aqui, talvez o meu seja um deles. Então eu me lembrei de A Cabana!

Antonio Marcos

2010-05-29

As Jibóias, os carneirinhos e os amigos


 
Quem não se lembra do Pequeno Príncipe? Quem nunca leu esse livro tão maravilhoso e que imprime em nós, valores sobre o cultivo das relações, especialmente a amizade, de forma tão entusiasta?! Nestes dias estou relendo-o e impressionado com o que ele traduz nas páginas acerca da beleza de se ter um amigo, uma amiga, alguém a quem podemos confidenciar as nossas vidas, buscar refúgio e abrigo nos dias mais sombrios e alguém com quem não precisamos nos esforçar para ser entendido.

Os amigos são essas pessoas com quem Deus gosta de contar para cuidar de nós! Por isso é que eles amam tão parecidos com Deus que nos impressionam com a grandeza e pureza de seus corações. Eles nos deixam felizes por simplesmente existirem, como também quando estão conosco são tão autênticos, tão verdadeiros, brincam, são livres, conhecem-nos, gostam de nos fazer rir, e não perdem tempo em se preocupar conosco, são capazes de sofrerem e chorarem conosco. Quando querem nos dizer algo que é necessário, o fazem de tal forma que não nos sentimos cobrados ou agredidos. Tudo neles expressa o único interesse de nos fazer o bem e de nos ver felizes.

Os amigos, eles não se importam se não sabemos desenhar carneirinhos. Eles gostam mais do essencial, do coração, da alegria, do amor verdadeiro. Mas quando só sabemos desenhar uma jibóia digerindo um elefante e que parece mais um chapéu, eles também sabem valorizar e até veem além. Dizia o interlocutor do Pequeno Príncipe: “É triste esquecer um amigo. Nem todo mundo tem amigo. E eu corro o risco de ficar como as pessoas grandes, que só se interessam por números. Foi por causa disto que comprei uma caixa de tintas e alguns lápis também”. O Pequeno Príncipe, o amigo, conseguiu ver um carneirinho além de uma simples caixinha desenhada no papel com pequenos orifícios de entrada e saída do oxigênio. Seu interlocutor, feliz por ter agradado o Pequeno Príncipe com aquele simples desenho, faz a sua confissão: “Meu amigo nunca dava explicações. Julgava-me talvez semelhante a ele. Mas, infelizmente, não sei ver carneiro através de caixa. Sou um pouco como as pessoas grandes. Acho que envelheci”. São assim os amigos, surpreendem-nos com o que veem além daquilo que não conseguimos enxergar.

Desenhando jibóias ou carneirinhos, os nossos amigos sabem que o essencial se cultiva a partir da descoberta do que está dentro. Tudo o que se vive fora é para se cultivar o essencial: a amizade, o amor, a vocação a existirmos para alguém de forma única e irrepetível. Ah, eles também sempre nos desafiam na maneira de amar e nos questionam se estamos vivendo na simplicidade das crianças ou se envelhecemos, não vendo mais os carneirinhos através da caixa. Como é bom ter verdadeiros amigos!

Antonio Marcos

Conquistar os outros para o bem, para o bom e para o belo

Fala-se muito da falta de referenciais em nossos dias como da inversão de valores. Diz-se que não se trata de uma destruição dos valores, mas de uma não hierarquização dos mesmos, ou seja, o não considerar uns mais essenciais, portanto, imutáveis, absolutos, outros menos importantes e por isso, mais sujeitos à mudanças, desde que não negue a dignidade da pessoa, não contrarie a verdade e não seja empecilho para o bem comum.

Sempre que tocamos na questão dos valores, deve-se levar em conta também a subjetividade e a consciência, a cultura e o contexto em que fomos modelados na nossa maneira de pensar e agir. Quero dizer que não estamos isentos da influência dos condicionamentos históricos, educacionais e culturais. Obviamente isto não significa dizer que os valores estejam sujeitos à autonomia, ou seja, que sejam definidos, vividos e justificados pelo que simplesmente entendo por valores, independente do dano que cause aos outros, a mim mesmo e ao bem comum. Isto é o que a Moral chama de relativismo dos valores ou uma ética relativista. Em nome da autonomia se quer justificar o individualismo e até a barbaridade. O papa Bento XVI chamou de “Ditadura do relativismo” essa forma errônea de viver os valores.

É grande a nossa responsabilidade diante deste cenário confuso e tortuoso que atinge as melhores consciências dos que convivem conosco ou mesmo os que contemplamos no cenário político, no trabalho, na empresa, nas relações cotidianas, das pessoas simples às mais bem preparadas. Outra vez uma pessoa falava mal do seu patrão dentro do ônibus, enquanto conversava com um amigo. Dizia ela ironicamente: “Tenho certeza que meu chefe rouba a sua empresa, mas só me incomoda o fato de que não estou sendo beneficiada com este roubo. Quero dizer que ele poderia me dar um aumento, já que é ladrão!”. Ela falava sério, e isto me intrigou profundamente. Quando a olhei e vi sua boa aparência, seu jeito de falar, fiquei me perguntando: o que faz com que nossas consciências estejam tão ofuscadas da verdade? Por que o que é bem se julga ser mal, e o mal, passa a ser um bem? E o fator contornável parece mesmo ser o interesse, o poder, o dinheiro, o conforto. Se sou beneficiado também com essa injustiça, então está tudo bem, é verdade, é valor, é justo!

Acredito que uma das formas que podemos questionar a nós mesmos e aos outros e provocar mudanças, ainda que sejam poucas, mas que não deixam de ser significativas, é mesmo o testemunho de vida, a maneira como vivemos os valores, como pensamos e nos expressamos, onde quer que estejamos, sempre na prudência e na caridade. Nunca se teve tanta necessidade de referenciais em nossa sociedade como nos nossos dias. E para isto não se precisa fazer barulho, chamar a atenção, querer estar em evidência, fazer discursos moralistas e condenativos, ser a bola da vez! O que se precisa primeiramente é da nossa consciência iluminada pela verdade e disposta a viver como tal. É grande o choque numa consciência relaxada e deturpada quando tem contato com uma pessoa que expressa pela vida a limpidez dos valores, a liberdade de ser e pensar diferente, contra a corrente, mas que serenamente sabe contagiar e despertar essas consciências adormecidas para o bem, para o bom, para o belo, para Deus, para os outros e para elas mesmas.

Antonio Marcos

Só se desenvolve quem se envolve!


Há alguns dias escutei essa expressão e que não me saiu mais da cabeça: “Só se desenvolve quem se envolve!". Isto vale para todas as realidades nas quais está inserida a nossa vida, sem dúvida. Mas aqui quero situá-la dentro do aspecto do relacionamento, de forma particular, o namoro e o casamento. Penso que é aqui onde está a parte mais delicada e o maior desafio, visto que levamos conosco aquela opção livre da escolha por amor e por isso para sempre. Nesses dias uma pessoa muito especial para mim, partilhava-me ao telefone que deseja muito que seu namorado se envolva no processo em que ambos precisam amadurecer e superarem para se solidificar a confiança.

Sabemos que o envolvimento é o que chamamos na relação de reciprocidade e responsabilidade conjunta. O processo da realização no amor não se faz sozinho, é óbvio. Requer, portanto, compromisso, engajamento, envolvimento da própria vida. Ninguém faz o outro feliz querendo apenas receber, ser cuidado e amado. Tem que se dá, tem que envolver o coração e todo o ser. Caso contrário um só é beneficiado, não sei se feliz, porque a felicidade verdadeira é essencialmente doação, saída, altruísmo. Casa-se para fazer o outro feliz, mas como se esquece rápido desta verdade inalterável! Daí que logo chegam as cobranças, a indiferença, a desconfiança da opção, as crises com o primeiro filho, com a mudança de vida familiar, com os negócios e até com a estética.

Quem ama se envolve, caminha junto, constrói a dois a história. Quem ama não trai, não mente, não simula para o outro, não destrata, não faz sofrer. Quem ama não cobra perfeição, mas promove a confiança e admite a liberdade de que o outro é falho, tem limites, pode errar, mas não nos fará o mal porque o amor quer sempre o bem do objeto amado. Santo Agostinho afirmava: “Ama e faze o que queres!”, ou seja, quando amamos de fato não somos capazes de fazer o mal ao outro. Quando amamos de verdade o pedido de desculpas e perdão não está ausente do nosso vocabulário, porque amar é também recomeçar cada dia na confiança e na conquista do outro. Amar de verdade é se envolver para desenvolver a capacidade de dar a vida pelo outro, nas dores e nas alegrias. Isto não é uma utopia, mas o sonho de Deus e seu projeto de felicidade para a relação entre o homem e a mulher, segundo o seu designio. E isto é possível viver, ao contrário do que o mundo tenta nos convencer.

O envolvimento tem perdas e ganhos. Aprende-se com o outro cada dia na escola da relação. Perder pode nos parecer humilhante quando calamos mesmo certos, quando evitamos a desconfiança, a ofensa nas palavras e indiferença, quando renunciamos nossas vontades para promover o outro e para fazê-lo feliz, quando somos tolerantes com as fraquezas do outro, quando exercitamos o elogio e as palavras afáveis mesmo quando se torna difícil. Isto não é fingimento, mas amor provado que também precisa disto para voltar ao frescor. A arte do cultivo diário através da reivenção na criatividade do amor é o segredo para aquele namoro que nunca perde sua juventude, seu vigor, sua profecia, inclusive dentro do casamento. Mas, importante e indispensável lembrar: quando Deus é a primazia na relação e na vida pessoal de cada um, então tudo isto se torna incansável,mas um prazer e uma alegria, um contínuo desenvolvimento porque uma constante doaçaõ de si ao outro na força do amor de Deus.

Antonio Marcos

2010-05-27

Não há acidente nos planos de Deus

Entre nós que cremos, costumamos dizer que as grandes coisas que Deus vai realizar em nossas vidas, são preparadas por ele mesmo através da sua divina providência. Alguns até vivem a experiência de perceberem pela oração e pelos sinais concretos e simples da vida cotidiana, a comunicação de Deus a preparar os nossos corações para os seus desígnios. Os santos são testemunhas dessa forma de intimidade com Deus. Santa Teresinha do Menino Jesus afirma que “tudo o que Deus vai nos pedir ele já nos concedeu”. Ele não pede nada além das nossas forças e possibilidades porque ele mesmo é a nossa garantia de resposta ao seu desígnio, por mais que nos pareça absurdo e impossível.

Quem teve a oportunidade de ler as Cartas de Madre Teresa de Calcutá, uma das mais célebres obras da espiritualidade publicada em nossos dias, pode testemunhar a força de sua convicção em acreditar que Deus falou ao seu coração acerca do desígnio do chamado a sair da congregação para assumir a missão junto dos pobres de Calcutá, na Índia. Tudo parecia loucura aos olhos de quem via por fora, mas, devidamente submissa a Deus e às orientações do seu pastor, do Bispo, permaneceu firme até o fim. Não obstante a aparência de tudo ser contradição e nas próprias crises de fé e securas da alma, Madre Teresa não perdeu o alvo, a certeza de que Deus estava falando e que tudo concorria para a vontade do seu Senhor.

Não há acidente nos planos de Deus. Às vezes olhamos as realidades com um olhar míope, marcado pelas circunstâncias e condicionamentos, pra não dizer do turbilhão de nossas emoções e limitações, daí que não entendemos de início o significado de alguns acontecimentos, seja ele a morte, a decepção, a humilhação física e moral, o fracasso profissional e no relacionamento afetivo, a doença e aquele erro em alguma opção que nos custou tanto. No entanto, absolutamente, para quem crê, há um fio condutor nos acontecimentos. Não se trata de destino, mas de uma vontade amorosa que não permite que o mal tenha a última palavra para quem sabe esperar em Deus. Gosto de uma citação de Carlos Drumond de Andrade quando fala do mistério da concepção de uma vida que resume o que tentei aqui comunicar: “Os bebês, eles nascem antes; nascem no momento em que se anunciam, quando há realmente desejo de que venham ao mundo. O parto apenas dá forma a uma realidade que já funcionava” (Poema Nascer. 70 historinhas, Best Seller, 2008). Há uma realidade que não deixa de funcionar para nós quando concebemos no mais íntimo a certeza de que Deus nunca nos abandonará.

Antonio Marcos

Afastai-vos das humanas paixões...

“Em si mesmas, as paixões não são boas nem más” (CIC 1767). Tais disposições naturais se originam no coração e se tornam ponte que liga a vida sensível com a vida do espírito. As paixões podem ser para o bem ou para o mal. Quando a paixão está sob a guia da vontade humana e é devidamente orientada para o bem de si mesmo e do outro, então é uma paixão boa. Diz o Catecismo ainda que “a paixão mais fundamental é o amor provocado pela atração do bem. O amor causa o desejo do bem ausente e a esperança de consegui-lo. Este movimento se completa no prazer e na alegria do bem possuido. (...) As paixões são más se o amor é mau, boas se o amor é bom” (cf. CIC, 1763-1766).

“Afastai-vos das humanas paixões que fazem guerra contra vós mesmos” (2 Pe 2,11). Não precisamos de uma profunda reflexão para compreendermos esta recomendação das Sagradas Escrituras, pois temos consciência e experiência da força avassaladora quando nossas paixões não estão guiadas e ordenadas para o bem. Quando nossas paixões estão desregradas, fora do alvo e do objeto que corresponde ao que Deus deseja para nós, seja pela razão ilumidada pela fé ou pela lei natural que nos inclina para o bom, bem sabemos que ficamos enfraquecidos na vontade, vulneráveis às ciladas do mal e assim comprometemos o melhor de nossas energias psíquicas e afetivas.

As paixões podem nos cegar o coração e obscurecer a luz da razão, levando-nos dos hábitos ao vício da gula, do consumo, do sexo, do fazer e até mesmo do lazer. Quando as boas energias das paixões se desajustam dentro de nós, podemos facilmente experimentar o vazio, a raiva, o ciúmes, as crises de baixa estima e até o desejo de violência, fazendo das nossas faculdades e sentidos um instrumento para se buscar comprensações. Lembramos aqui de Santa Teresa de Ávila nos seus longos anos de vida mesquinha e entregue às suas paixões, mesmo dentro da vida religiosa. A imaginação, dizia a santa carmelita, torna-se então a louca da casa.

A ordem das nossas paixões não depende simplesmente de nossas forças humanas. É indispensável o exercício do crescer nas virtudes, mas, sobretudo, do se deixar conduzir pelo próprio Espírito Santo que realiza sua obra mobilizando o ser inteiro, inclusive as dores, os medos e as tristezas (CIC, 1769). O desejo mais sensível do homem é pela felicidade, e esse desejo se origina na aspiração que tem o homem por Deus: “Meu coração e minha carne exultam pelo Deus vivo” (Sl 84,3). “É a tua face, Senhor, que eu procuro!” (Sl 27,8). A melhor maneira de vivermos o equilíbrio e de colaborar com que nossas melhores energias não sejam “a louca da casa” é mesmo nos deixando guiar pela razão e pela fé.

Antonio Marcos

A pessoa boa sempre reluz, vibra, conquista e atrai!

O Bom conduz à Verdade. Quando estamos em dúvida se uma coisa é verdadeira ou não, mas sabemos que é boa, podemos concluir que é verdadeira. O caçador, que saiu com um amigo para caçar, perde de vista o amigo. Vê a um certo momento a moita se mexer. Prepara-se para atirar. Ele se dá conta que, porém, de estar incerto se atrás das folhas está um animal ou o amigo. Atira ou não? Escolherá de não arriscar a vida do amigo, porque isso é bom, e será também a escolha verdadeira. A mesma pergunta surge ante o embrião humano: é uma pessoa ou um punhado de células? Atiro ou não?

O Bom cria a Beleza. Para além das formas físicas a pessoa boa sempre reluz, vibra, conquista, atrai. O Bom produz a pessoa simples, e o simples é sempre belo e verdadeiro, ao contrário da mentira, que é sempre contorta e feia. Dizer, por exemplo, que uma reforma social é “complicada” é dizer que está paralisada nos tentáculos da mentira.

O Bom engendra o Amor. O Bom se faz desejar, querer, possuir. Ele produz união. A pessoa que invade o ambiente com o perfume se faz querer e as outras pessoas, invadidas por aquele Bom, também se fazem querer. Estabelece-se, assim, um círculo de união entre pessoas e coisas, dentro de um círculo amoroso maior, que é o “Amor que move o sol e as estrelas” (Dante Alighieri. A Divina Comédia, último verso).

Bom realiza a Vida. Engendrando o amor, o Bom gera a vida. As pessoas nascem de um ato de amor. Nos livros sagrados milenares se lê que “quem ama vive” e “quem não ama permanece na morte”, pois “Deus é amor, e quem vive no amor vive em Deus, e nele Deus” (1Jo 4,7-8). A Ética é a arte de conduzir uma vida plena, em comunhão com os outros, com o mundo e, para quem crê, com Deus. Ela realiza a união fecunda do Todo. Alguns definindo a Ética, dizem simplesmente que “a Ética é vida”, ou seja, é um tipo de estruturação da vida que faz a pessoa adquirir e saborear mais a vida.

Fonte: Antonio Marchionni. Ética, A Arte do Bom, 2008.

2010-05-26

Família, sociedade e pedofilia

Historiadores (inclusive alguns não católicos) afirmam que a Igreja foi a primeira Instituição a lutar contra a pedofilia, especialmente na Europa. Devido as mudanças sociais, políticas e econômicas com passava aquele Continente, povos se dirigiam para outras cidades mais bem sucedidas para se buscar o sustento. Eram os viajantes, quase nômades. O abuso sexual das crianças acontecia, em grande proporção, por esses viajantes que, ao se hospedarem naquela casa, não tendo mais lugar para eles entre os adultos, eram colocados entre as crianças. A Igreja reagiu e passou a orientar os pais e combater a pedofilia.

A Sociedade hoje e, de forma justa e necessária, reage contra essa prática abominável, que é a violação da dignidade das crianças, abusando-as sexualmente e violentando-as não somente fisicamente, mas também psicologicamente e moralmente com consequências dolorosas. Também as pesquisas sérias têm mostrado que o maior índice de abusos sexuais com crianças e adolescentes, não acontece entre os religiosos e sacerdotes, mas nas famílias, com os próprios pais ou parentes próximos. Não obstante o sensacionalismo de uma parte da imprensa agnóstico-atéia, ela tem a sua parte na responsabilidade de denunciar esses abusos e crimes.

Acontece que quando a TV apresenta, usando de forma instrumental e como produto rentável, as crianças se exibindo com suas maquiagens e roupas inapropriadas e dançando de forma erótica (ainda que não tenham consciência do que fazem), tudo induzido pelos que querem audiência e confrontar os valores da família e da relação segundo o plano de Deus, nós simplesmente assistimos, achamos bonito, rimos e nos calamos com o nosso voto de confirmação. Então quando essas mesmas crianças são vítimas de abusos e violência sexual a sociedade se revolta, e é justo que o faça, mas deveria também se reconhecer colaboradora desses crimes e não simplesmente culpar a Igreja. Não há então uma “cultura da pedofilia” sendo cultivada em nossa sociedade? Acredito que sim!

Volto à questão da responsabilidade dos pais no processo de educação, mas isso também deve questionar o fato de que aos pais estão cada vez mais despreparados para a educação dos filhos e, o pior, ausentes deste processo. Nossos filhos precisam mais do nunca, não necessariamente da tecnologia e de toda forma de acúmulos, roupagens de uma pós-modernidade que os deixa expostos a tantos perigos, mas precisam de referenciais a começar pelos pais. Infelizmente nossos filhos chegam muito rápido a se prostrarem ao “deus da estética, do corpo, da beleza, da moda e do sensualismo”. Temos refletir sobre essas questões, talvez desligar um pouco a televisão, conversar mais com os filhos para "não culpar" (não inocentando os verdadeiros culpados) os outros quando nos vemos diante da barbaridade. Essa sociedade doente e pedófila parece começar na omissão do processo de educação.

Antonio Marcos

O que nos enfraquece não são os escândalos, mas o câncer ideológico!

Recebi por email nesses últimos dias uma partilha de vida de uma pessoa (uma mulher) casada, cristã católica, residente numa determinada metrópole onde é sede de uma Arquidiocese, que ama a sua Igreja e que, exatamente por isso, quis melhor conhecer a sua fé, estudando a doutrina na academia, conhecendo um pouco mais da beleza dos mistérios que o tesouro do depósito da fé católica conservou ao longo dos séculos como um altíssimo dom de Deus, sinal do seu cuidado e da sua providência em tudo fazer para que o homem o conheça e seja salvo em Jesus, mediante a Igreja, seu corpo místico.

No entanto, relatou-me esta minha irmã, que tamanha foi a sua decepção ao se deparar neste determinado ambiente de formação católica acadêmica, com o que jamais esperava, um ambiente secularizado e desfigurado da real missão de formar os católicos na solidez da fé, no mistério da Palavra de Deus, na vida sacramental, nas verdades de fé e nas discussões sadias que a teologia proporciona no processo da maturação da fé. Transcrevo abaixo a confissão desta minha irmã e que muito me impressionou e fez dolorido o meu coração.

“Nesta Instituição de Formação Católica, Antonio Marcos, tive contato com o desrespeito aos símbolos católicos e com o materialismo travestido de verdade científica que explica e mostra que nós cristãos somos débeis mentais em acreditar em coisas tão óbvias. Deus uno? mera criação do homem... Bíblia inspiração divina?.... só você ainda acredita nisso. Jesus?... homem comum, de divino não tem nada, um revolucionário!... milagre?... só na ação do homem... eucaristia?... conversa inacreditável... ressurreição?... pior ainda! Cursei duas disciplinas até o professor afirmar, textualmente, ‘eu aqui sou um dos poucos que acredita em Deus uno.’ Com essa eu pedi desligamento do curso, mas antes tive que ouvir do coordenador, durante nossa conversa, que era questionável a inspiração divina nos textos bíblicos. E essa modernidade contamina, pois um casal amigo veio com esse papo, daí eu perguntei a ele: então você vai para missa para louvar um revolucionário? um homem comum? Cadê a coerência? Quase perco um amigo! Vejo que o que nos enfraquece não são os escândalos, pois logo passam, o jornal esquece. O que nos enfraquece é o câncer ideológico em nossos órgãos vitais.”

Realmente é de sofrer, não é verdade? Mas quero deixar claro que estudar a teologia continua sendo uma das mais felizes experiências acadêmicas. Sou testemunha da minha experiência, não obstante os muitos desafios que também tenho encontrado. No entanto, é preciso que se diga que lamentamos esta secularização em alguns órgãos da própria Igreja, lugar onde se deve por excelência cultivar a clareza da fé, como também desta secularização na cabeça de tantos formadores católicos de opinião, colaboradores no processo de levar as consciências a uma maturação da fé. Essa desfiguração atinge de cheio os novos evangelizadores. Como estes então, não convictos e mal formados, poderão ensinar aos homens de hoje a beleza e a sempre novidade do cristianismo e da fé católica?

Lembramos que são claras as recomendações da Santa Igreja quanto à formação acadêmica dos seminaristas e do Povo de Deus. Ensina-nos o Concílio Vaticano II: “A formação dos alunos depende de leis sábias ,e sobretudo de educadores idôneos (...) As disciplinas teológicas sejam ensinadas à luz da fé e sob a direção do magistério da Igreja, de tal forma que os alunos venham encontrar com exatidão a doutrina católica na Revelação divina, penetrem-na profundamente, dela façam alimento de sua vida espiritual e se tornem capazes de a expor, defender e a anunciar (...)” (OT, 8.16).

Concordo com minha irmã que “o que nos enfraquece não são os escândalos, pois logo passam, o jornal esquece. O que nos enfraquece é o câncer ideológico em nossos órgãos vitais.” Concluo esta reflexão com as palavras magistrais e proféticas do papa Bento XVI, ditas aos representantes do mundo da cultura em Portugal e aos Bispos, por ocasião da sua visita a esta nação, neste mês de maio, 2010: “A fidelidade à pessoa humana exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. O que fascina é sobretudo o encontro com pessoas que creem, e que, pela sua fé, atraem para a graça de Cristo dando testemunho d’Ele”.

Rezo e peço que rezemos pelos nossos professores católicos, como também pelos pregadores e catequistas, pelos presbíteros e pelos educadores, para que eles e nós sejamos conscientes da responsabilidade da imensa graça de ensinar com fidelidade e amor o tesouro e a beleza da nossa fé católica. No entanto, diante de tais situações temos de responder com o testemunho de vida e com o diálogo inteligente e, sem dúvida, fazendo a nossa parte no esclarecimento e na colaboração de como pensa o Evangelho e a Igreja. Que a nossa vida dê testemunho das razões de um coração que crer sem confusão, sem tristeza e sem medo de mostrar aos outros que vale a pena crer, que vale a pena ser católico e que vale a pena o risco e a coragem para anunciá-Lo. Olhando para as nossas vidas a fé de muitos "pequeninos do Senhor" não se perderá, mas voltará a encontrar o rosto de Cristo na Igreja e nos seus ensinamentos.

Antonio Marcos

2010-05-25

Cem vezes mais..., e com perseguições!


Ao meditarmos o Evangelho (Mc 10, 28-31) desta terça-feira, 25 de maio, poderíamos nos perguntar: “Recebendo cem vezes mais não nos tornaríamos ricos? Não faz Jesus uma apologia à riqueza aos que tudo deixaram para segui-Lo?”. Na verdade, a lógica de Jesus não é oposição à riqueza, muito menos apologia, mas denúncia ao acúmulo e à falta de generosidade dos bens e da própria vida.

A riqueza para Jesus significa receber para dar gratuitamente. Isto, evidentemente, não menospreza o esforço de quem lutou para conseguir seus bens e sua vida bem sucedida. Os estudos, o trabalho, a preparação e a capacitação, as nossas labutas para vencer fazem parte do processo evolutivo de nossa missão nesta vida, mas não constitui o fim e o sentido último. A lógica de Jesus é a do serviço, da generosidade, do exercício do amor e da prática do bem.

Admira-nos a generosidade na vida de tantas pessoas que, de alguma forma, estão ligadas a nós. Ficamos até constrangidos em vermos e experimentarmos da bondade de tantos corações e, o mais assustador, é que muitas dessas pessoas não estão ligadas à religião, não estão no exercício assíduo das piedades cristãs e outras nem se quer têm fé ou acreditam em Deus. “O princípio do fazer o bem e evitar o mal” é de natureza inata. O homem quer o bem e a felicidade; procura-a mesmo quando o faz em caminhos tortuosos e em opções que roubam sua dignidade. A força para o bem, para o bom e para o belo em nós é maior do que para o mal. No entanto, que se saiba, isto não nos dispensa da acolhida da Salvação em Jesus Cristo. Absolutamente nada se compara ao conhecimento da fé em Jesus, da consciência de pecador e de uma vida nova nos conquistada pela graça. Pois bem, a generosidade na vida destes é um modo muito concreto de sermos questionados, nós que temos fé, que rezamos, que conhecemos a Palavra de Deus, que comungamos e nos orgulhamos em ser católicos. Uma linda canção do Pe. Zezinho diz, parafraseando São Paulo: “Se eu conhecesse todas as teologias, mas não tivesse amor, teria tudo, menos Deus a meu favor!”.

Por outro lado as perseguições não são conseqüências simplesmente do ter, embora em contextos de mundo de consumo e violência, pobreza e desigualdades sociais, isto se torna inevitável. Não é verdade que estamos todos temerosos e cada dia preocupados com a nossa segurança, nossos bens, nossos filhos, nossos tesouros? Sim, não há pessoa que diga o contrário! No entanto, esses medos e angústias por perdermos o que temos diminuem quando estamos desprendidos do que passa, quando aproveitamos o que conquistamos para fazer o bem, para ajudar, para amar e trabalharmos em nós essa loucura das posses e do egoísmo. Sabemos que quem acumula não é feliz verdadeiramente e não tem paz, pois gasta a maior parte de suas forças protegendo o que tem. Mas há uma dimensão também da perseguição e esta nos é muito familiar: a generosidade de vida, infelizmente, desperta em alguns a inveja, o ciúmes, a ganância, a raiva e a te o desejo de destruir. Quantas pessoas boas deixaram de fazer o bem por causa dos olhares dos outros, das críticas e das perseguições diversas. É uma pena!

Ser uma pessoa boa, ao contrário do que se pensa, não parece ser fácil em dias como os nossos, é preciso coragem para romper com essa indiferença e individualismo que asfixia as melhores intenções para o bem. Isto se dá porque a generosidade incomoda e questiona a forma de vida dos outros que acumulam, e estes não são necessariamente os que ricos que a sociedade nos mostra, mas os ricos de si mesmos, de quem se sente melhor do que os outros pelo fato de ter alguma coisa, de saber algo a mais e de ter este ou aquele tipo de poder. Não obstante tais perseguições, não podemos desanimar em fazer o bem, diz as Sagradas Escrituras.

A oração do dia assim reza: “Fazei, ó Deus, (...) que vossa Igreja vos possa servir, alegre e tranqüila”. Alegria e tranquilidade não significam ausência de perseguições, mas, exatamente por causa delas, não perder a alegria e a serenidade. Maiores sofrimentos são os que aprisionam o coração e a alma, ficando assim imobilizados para uma vida generosa, ofertada, entregue livremente. Viver isto, eis o nosso ideal! Viver isto, eis o que significa receber cem vezes mais!

Antonio Marcos

2010-05-24

Ver a lebre...seguir os passos...

Falando de forma apaixonada do filósofo Kierkegaard (ano de nascimento, 1813) o escritor Jostein Gaarder, na sua célebre obra: o Romance da história da filosofia, “O Mundo de Sofia”, afirma: “kierkegaard observava que a Igreja e a maioria dos cristãos de seu tempo tinham uma posição extremamente evasiva em relação às questões religiosas. E ele não aceitava isto de jeito nenhum. Religião e razão eram, para ele, como fogo e água. Kierkegaard pensava que não bastava achar ‘verdadeiro’ o cristianismo. Ter uma fé cristã significava seguir os passos de Jesus”.

Veja bem, o filósofo Kierkegaard não foi contrário à razão, daí que se apaixonou pela filosofia e criticou uma forma de religião que não levava à conformidade com a pessoa de Jesus Cristo. O cristianismo está para além de simplesmente especulação racional, embora a nossa fé seja pensada e não vivida às apalpadelas. Para o filósofo “o fundamental não é saber se o cristianismo é verdadeiro, mas se é verdadeiro para mim”. O que quero chamar a atenção é exatamente acerca dessa necessidade de “vermos a lebre”, como afirma Maria Emmir, ou seja, só vale a pena se eu fizer pessoalmente a experiência com a pessoa de Jesus e me decidir por Ele. Quando ela de fato acontece não significa que estamos isentos de erros, quedas e até pecados, mas que acreditamos que a santidade é possível e ela não significa anjos de asas. Significa que fui visitado por Deus, algo parecido com o que descreve Larrañaga, na obra Irmão de Assis: “Naquela noite em Espoleto Francisco teve o que a Bíblia chama de uma visita de Deus (...) e o que a vida espiritual chama de graça infusa extraordinária (...)Essa visita de Deus parece uma revolução na pessoa que o recebe; Descobre-se que Deus é o único que vale a pena.”

Lembro que quando o Moysés (Fundador da Comunidade Católica Shalom) foi, no período inicial da Comunidade, procurar o senhor Cardeal, arcebispo de Fortaleza, Aloísio Lorscheider, para falar-lhe das inspirações de Deus e da sua percepção quanto à espiritualidade do carisma, disse-lhe este homem de Deus, sábio e inteligente: “Leia as obras de Santa Teresa de Ávila”, depois conversaremos. Começava o clareamento do contorno do que o fundador chamou de contemplação na ação. É possível e necessário rezar muito e dar-se muito na evangelização. É possível estar no mundo e não ser do mundo, e ser amigo de Deus. Assim tomaria forma a beleza da Comunidade de Vida e da Comunidade de Aliança. O segredo é o que kierkegaard defendeu: “Fazer a experiência do que Jesus significa para mim e seguir os seus passos”.

Antonio Marcos

Papai e mamãe, vocês têm uma missão insubstituível!

Mesmo que seja um “mandamento decorado”, sabe-se que, como filhos, devemos honrar pai e mãe. O Livro do Eclesiástico fala de forma muito bonita sobre isso: “Ouvi, meus filhos, os conselhos de vosso pai; segui-os de tal modo que sejais salvos” (Eclo 3,2).

Estamos diante de profundas mudanças nos valores vividos por nossas famílias e sociedade. Mudou-se a conjuntura, os contextos, inclusive nos modos de educar nossos filhos. Vemos barbaridades na relação pais e filhos e depois ficamos nos perguntando sobre causa de alguns acontecimentos e dessa inversão de valores assustadora vigente. Bastaríamos falar dessa liberação sexual nunca visto, nem nos tempos do paganismo nas províncias romanas ou na década da revolução sexual depois dos anos 60. O filho diz: “Meu pai é meu amigo! Posso transar a vontade, inclusive na casa dos meus pais. Tenho 15 anos, já sou dono do meu nariz”.

Diz o Pe. Valdir Vitorino, MC: “O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que “a paternidade divina é a fonte da paternidade humana” (nº 2214), e que aí está o “fundamento da honra devida aos pais”. “Honra teu pai de todo o coração e não esqueças as dores da tua mãe. Lembra-te que foste gerado por ela. O que lhes darás pelo que te deram?” (Eclo 7,27-28).” Sim, os pais são representantes legítimos de Deus na vida dos filhos.

Papai e mamãe, é verdade que o tempo do autoritarismo não pode voltar, é preciso dialogar, esclarecer, cuidar e amar, mas traduzir isto pela amizade não significa perder a autoridade, pois ela é diálogo, firmeza, coragem de dizer "não" quando é preciso e confiança em dizer "sim" quando é justo que se diga. As permissões na vida de nossos filhos precisam ser pelo que será bom para ele e não simplesmente no prazer pelo prazer. Lamenta-se que os pais não queiram e temam a missão de educar no amor e na verdade os filhos. Teme-se confrontar e não contrariar por não querer ferir a autonomia, a liberdade que tem o filho de se fazer suas opções. ou mesmo revoltá-lo. Essa postura de em nada querer contrariar o filho é desastrosa e pode ter conseqüências irrervesíveis.

Papai e mamãe, a missão de vocês é insubstituível, principalmente em tempos como os nossos onde falta referencial a partir de nossas casas. Claro, é um reflexo de como os pais estão vivendo a relação a dois. Infelizmente a febre pelo trabalho, pelo dinheiro e pela posse tem minado a relação de nossos casais. E ai tem-se buscado alternativas no processo de educação dos nossos filhos, preenchendo-os de outras ocupações, ainda que o “pó e o crack” estejam fazendo-lhes companhia, mas que eles estejam ocupados e assim “colaborem no descanso dos pais” ou amenizem neles o despreparo de ser ter que olhar nos olhos e dizer que os amam e que por isso querem estar presentes em suas vidas, ajudá-los a ser pessoas, filhos e pais no futuro.

Antonio Marcos

Doce alívio, vinde!

Na sequência de Pentecostes cantada por toda a Igreja neste Solene Domingo passado, ficou em meu coração ressoando como súplica esta expressão: “...doce alívio, vinde! No labor descanso, na aflição remanso, no calor aragem. Enchei, luz bendita, chama que crepita, o íntimo de nós!

Enquanto celebrava e rezava a Santa Missa, bendizia a Deus pelo reavivamento que fez o Espírito Santo na Igreja do Brasil nestes últimos 20 anos. Sim, novos tempos na Igreja do Brasil por meio do qual todos, pelo menos a maioria dos católicos, foi alcançada de alguma forma. Também penso como Pe. Sciadini que foi graças a RCC que a expressão batismo no Espírito Santo foi resgatada do dicionário morto.

Tem-se falado muito mal da RCC, e não precisamos esconder que tudo tenha sido sem fundamentos, claro que não, pois exageros e erros existiram, mas são incomparáveis em proporção aos frutos bons que esta árvore produziu. Poderíamos falar de tantos, mas recordo aqui apenas as Novas Comunidades e, dentre elas, de forma particular, a comunidade Canção Nova e a Comunidade Católica Shalom. Quanta alegria e gratidão têm a Igreja do Brasil pelos frutos destas duas Comunidades Novas. Particularmente, sou testemunha na minha vida e na vida da Igreja do Ceará e do Brasil, das maravilhas que operou a graça de Deus por meio do dom shalom.

Nestes dias de Pentecostes pedimos que a graça de Deus derrame em toda a Igreja a luz e a força do Espírito Santo. Renove o sim de cada chamado e de cada homem evangelizado para que outros sejam despertos da sonolência de uma vida sem Deus, na indiferença e preso às aflições desta vida. Ó Espírito Santo, vinde, Tu que és o doce alívio! De forma especial, concede este alívio à Igreja que vive um tempo de purificação no amor e na fidelidade a Cristo, na sua missão corajosa de não calar nunca diante do mal e dos enganos de uma falsa felicidade. Vem, Espírito Santo, fogo de Pentecostes, faz-nos testemunhas da paz para que sopremos sobre os outros o doce alívio do amor de Deus.

Antonio Marcos

O divórcio, a dor e o recomeço!

Cada vez mais nossas famílias sofrem com a separação, o divórcio e, sem dúvida, não são poucas as dores e marcas que ele deixa no coração e na alma, no lar e nos filhos. Muitas interrogações e medos podem surgir, mas o certo é que a vida continua e, de fato, é preciso que se continue. Sei que nossas opções estão sempre situadas dentro de um contexto real e levam em conta nossa história de carências, fracassos, maturidade e imaturidade, necessidades, alegrias e esperanças. Não podemos reduzir tudo à questão do "sacramento do matrimônio", sobre o qual não se precisa fazer um discurso moralista e condenatório.

É preciso reconhecer que se foi consciente e responsável pelas opções. A separação, ou melhor, a infelicidade dentro do casamento é algo doloroso e angustiante por tantos motivos. É claro que a Igreja sempre vê como uma ferida para a Família o divórcio ou mesmo o rompimento inevitável de algumas relações. Mas o que aconteceu, aconteceu, agora é tempo não de condenar, mas de acolher, orientar e recomeçar. Essa "relação sacramental" acompanhará os cônjuges separados para sempre, mas não é fator determinante que indique que serão infelizes. Deus continua nos amando mesmo quando erramos e fracassamos na sua vontade. É muito importante aprender com os erros e acolher com responsabilidade as consequências, mesmo aquelas que são "irrevogáveis".

Temos uma alma, um corpo, um coração, uma mente, podemos amar, recomeçar, encontrarmos sentido de vida e ensinar os outros a viverem esses valores diferentes de como os temos vividos. Viver preso ao passado nunca será proveitoso para nós. Temos que viver a vida que há pela frente, mesmo com nossas "cicatrizes de guerra". O amor de Deus e sua misericórdia não podem ser condicionados aos fatos e circunstâncias. Portanto, a vida hoje exige de quem precisa recomeçar a vida afetiva, muito mais maturidade e responsabilidade porque se viveu, se amou, ainda que se tenha errado e, "aparentemente" ou concretamente fracassado, mas é preciso recomeçar.

Cada pessoa tem o "direito" de ser feliz e continua digna de ser amada e compreendida. Deus deve ser a nossa melhor escolha, encontrar nele o sentido da vida e de nossas frustrações, jamais culpá-lo. Meus pais são separados a mais de 25 anos e tenho acompanhado muitos casais jovens com este desafio e outros amigos me confidenciaram suas dores no campo afetivo-matrimonial. Não é fácil vê-los chorar seus erros e, muitos, quase irreversíveis. Digo sempre que a realidade em si, o reconhecimento do erro, já é a maior humilhação e também libertação, por isso não devem acumular remorsos e autoacusações, mas recomeçar com esperança, reparar com a vida o sofrimento que causamos aos outros e a nós mesmos. E rezar, sempre rezar, buscar a Deus e seu amor misericordioso que faz novas todas as coisas.

Peço a Nossa Senhora por todos os casais separados, por esta ferida em seus corações, e peço também pelas mães solteiras, para que não desanimem da felicidade. Perdoem a si mesmo e ao outro, e recomecem a viver. Descubramos em Deus a melhor forma de servi-Lo, pois, com certeza, há sempre necessidade de nós o Reino de Deus. Na verdade, somos nós os maiores necessitados de estarmos a serviço de Deus. Lembremo-nos, não estamos condenados a morrer sem nunca termos amado de verdade e, inclusive, sem termos sido amados de verdade. "Ninguém te condenou? Também eu não te condeno, disse Jesus. Vai e não peques mais".

Dedico este artigo a uma amiga que me confidenciou esta dor do divórcio e a esperança do recomeço. Aqui estão um pouco das palavras que a enviei por email . Obrigado amiga, pela confiança! Estarei sempre rezando por você e por quem sofre esta dor, para que nunca desistam da felicidade.

Antonio Marcos

2010-05-23

O amor livre e o problema da camisinha

Ninguém defendeu mais a vida na história do que a Igreja, basta se ler um pouco mais para se descobrir quantas vidas judias foram escondidas dentro do Vaticano para não serem mortas pelo exército de Hitler, por ordem do papa e contra até alguns prelados. Basta ler um pouco mais para se conhecer as denúncias nas palavras do papa da época; Basta se ler um pouco mais para se conhecer que a Igreja ama o homem, seja ele quem for e em que situação se encontre, porque assim ama Jesus. A Igreja também ama aquele que errou e pecou, inclusive o pedófilo e aquele que protesta contra Deus e contra a Igreja, ama quem riculariza o papa e até quem atenta contra ele, mas não pode concordar com o pecado, com o mal e com os enganos do homem. A Igreja condena o pecado, mas não o pecador.

Quando nossa consciência se encontra obscurecida e temerosa em ser original e pensar contra a maré, pensar a favor dos valores que dignificam o homem, então nossa revolta encontra um objeto de manifesto. Os vomitórios contra a Igreja são cheios de remorsos e desamor de quem fez suas opções erradas ou deixou que os outros as fizessem por si. “ Viva o amor livre!”… não sei se nossos filhos na prostituição, transando no leito matrimonial dos pais, abortando, desfigurados no corpo e na alma, despraparados para relações duradouras e construtivas, vazios de sentido e de maturidade humana, desfrutarão do que é ser gente fazendo desta expressão uma “bandeira de liberdade”.

O “problema da camisinha” é complexo porque envolve a dignidade da pessoa humana, o plano de Deus para a sexualidade, a beleza do namoro e vocação do sexo, a família e a sacralidade da vida. É complexo porque a sociedade capiltalista e hedonista combatem os valores morais, promovem a pobreza e a promiscuidade, injetam nas crianças, adolescentes e jovens o herotismo como uma droga que vicia e destrói, depois culpam a Igreja de retrógrada, moralista, querendo desautorizá-la a falar. Não se pode ter um juízo coerente dos dramas do homem de hoje com um olhar míope de si mesmo e da história. Não é fácil propor a verdade do Evangelho como verdadeiro caminho de felicidade, mas precisamos desta coragem. O Evangelho não humilha e nem escraviza, mas liberta e salva, devolve a vida em abundância.

Não temos o direito de julgar as pessoas e coagi-las ao que pensamos. O Evangelho é persuasão que apaixona e encanta. Por outro lado é sinal de pobreza intelectual e humana quando permito que “a lei do aqui e agora” determine o que é verdade só por causa dos alardes das situações concretas e das pesquisas. Temos de refletir, não somente nós que acreditamos que a camisinha “resolveria” apenas a satisfação do ego de quem não tem nenhum compromisso com os valores aqui citados e dos que precisam ganhar dinheiro com a banalização do sexo. A camisinha não resolve o desejo que nossos jovens têm pela verdade, pela pureza e pela castidade. A camisinha não resolve na proteção de um namoro em Deus, de salvaguardar os melhores sonhos de uma família que vocacione os filhos para a maturidade de quem aprendeu a amar, a esperar e a se sacrificar. No entanto, os que vomitam contra a Igreja sem a conhecê-la ou apenas conhecendo aquele “cristianismo do não”, deveriam se esforçar para escutá-la um pouco e perceber que há uma coerência no que é pedido para o homem viver, ainda que ele seja a sua própria instância maior de decisão, porque tem vontade e inteligência.

Quando a luz da fé operante não ilumina a inteligência, realmente se buscam soluções rápidas e aparentemente não incômodas para as dores do corpo e da alma. “A luz de Deus não diminuiu, o grão bom não foi sufocado pela semeadura da injustiça" (Bento XVI). Nem sempre o mais fácil é o mais seguro, e o corpo e alma não são uma questão de segurança, mas de vocação à felicidade nesta vida e à eternidade. Seguro mesmo é caminhar na luz de Deus. Não tenhamos medo!