Um adequado anúncio de Deus para nossos contemporâneos

Escrito Por Antonio Marcos na quinta-feira, abril 29, 2010 Sem Comentários
A nostalgia de Deus nasce do coração, do núcleo central da pessoa humana, no qual as faculdades ainda se encontram unidas. Tanto a afetividade como a liberdade desempenham importante papel no conhecimento humano. A ação de Deus como Mistério atinge a totalidade da pessoa em seu coração, mesmo que esta não consiga traduzir tal ação em conceitos que fariam de Deus mais objeto de conhecimento. Observemos, também, que nessa perspectiva a presença atuante de Deus se faz sentir em meio às experiências humanas, cotidianas ou não. Importante é saber captar tal presença escondida, vislumbrada nas entrelinhas do texto de nossa vida.

Diante da atual dificuldade de um discurso sobre Deus, por causa da fragmentação cultural e filosófica, e da tentação de uma solução emotiva ou fundamentalista, nós nos perguntamos se não se impõe valorizar mais a via existencial para Deus, que não deveria ser monopólio dos místicos, mas patrimônio de todo o povo cristão. Sabemos que a verdade de Deus, na Bíblia, não se constitui tanto através de arrazoados quanto de uma experiência diuturna de felicidade, de consciência, de firmeza, mas nela acontece, se realiza e se manifesta como tal. Naturalmente tal concepção não exclui a noção grega de verdade. Levando devidamente a sério seja o que nos revela Jesus Cristo de Deus, seja a verdade última sobre o ser humano, nós nos perguntamos pelas suas consequências em relação a um adequado anúncio de Deus para nossos contemporâneos.

Sem renunciar ao que exige nossa razão para não cairmos em desvios fatais, como já aconteceu na história do Cristianismo, julgamos, entretanto, que a via existencial que valoriza a experiência pessoal do Mistério de Deus na vida de cada um deveria ser mais enfatizada. É o amor e somente o amor que leva a razão a ultrapassar a si mesma, pois ele tem razões que a própria razão desconhece. Teoricamente, nossa fé se encontra continuamente ameaçada por sempre novos “mestres da suspeita”.Existencialmente, contudo, ela nos convence, confirma, ilumina com sua própria luz e com a experiência pessoal de cada um com Deus. Uma luz e uma verdade que nos acompanham, evoluem, mudam, progridem, simplificam-se através das provações e das purificações, tornando-se mais firmes, mais livres, mais passivos diante do Mistério que nos acompanha e que é o que temos de mais íntimo.

(Teólogo Mário de França Miranda. Igreja e Sociedade, 2009)