2018-11-30

Inteligência artificial e a relevância renovada da filosofia no mercado de trabalho



Desde seus primeiros dias na costa leste do Mediterrâneo, mais especificamente na costa do que hoje é a Turquia, a filosofia teve que enfrentar a acusação de ser inútil. Repetidamente, os filósofos tiveram que se defender contra a acusação de não contribuir com nada para a sociedade como um todo. E desde a história de Thales de Mileto de cair num poço enquanto olhava para as estrelas, nunca faltaram histórias de filósofos desajeitados, e eles quase constituem todo um gênero literário dentro da história da filosofia.

Mas, apesar dessa representação usual, a filosofia tem sido um fator-chave na formação da história. Não apenas no sentido de que os filósofos tiveram um papel ativo em momentos importantes (apenas temos que pensar em Brutus e Cássio tramando contra César, John Locke participando da fundação do partido inglês Whig ou John Stuart Mill como um oficial administrativo da Companhia Britânica das Índias Orientais), mas também no sentido de que os trabalhos dos filósofos na verdade moldaram as ideias da sociedade ocidental. As pessoas tendem a esquecer, mas a verdade é que o que hoje entendemos por pesquisa científica, economia e até política, só para citar as primeiras coisas que vêm à mente, são o produto final de um processo de pensamento que foi iniciado por filósofos.

E todos os sinais atuais apontam para uma época em que a filosofia voltará a ser crucial na formação da opinião pública. Os desenvolvimentos em inteligência artificial (IA) são de tal magnitude e estão ocorrendo em ritmo tão rápido que eles estão pressionando por uma reavaliação de conceitos fundamentais, e é o filósofo, e seus colegas humanistas, que estão em uma posição melhor para fazer, ou pelo menos iniciar este processo de reavaliação.

Todas as empresas de tecnologia que trabalham no campo parecem entender isso. Elas estão contratando dramaturgos, poetas e até mesmo comediantes para ajudá-las a melhorar seus assistentes pessoais baseados em inteligência artificial, e estão cortejando filósofos para ajudá-las a entender a natureza dessas invenções.

É em conexão com esses desenvolvimentos que o bilionário e empreendedor de tecnologia Mark Cuban tem afirmado ultimamente que, em um futuro próximo, a graduação em filosofia será mais valiosa do que uma graduação em ciência da computação ou engenharia:

“Eu vou fazer uma previsão; em 10 anos, um diploma de artes liberais em filosofia valerá mais do que uma graduação tradicional de programação… O que está acontecendo agora com a inteligência artificial é que começaremos a automatizar a automação. A inteligência artificial não precisará de você ou de mim para fazer isso, ela será capaz de descobrir como automatizar as tarefas nos próximos 10, 15 anos. Agora, a parte difícil não é se mudará ou não a natureza da força de trabalho. A questão é, durante o período em que isso acontece, quem será deslocado?

Os analistas veem o mercado de trabalho como algo que mudará radicalmente nos próximos anos e até mesmo afirma que os empregos que são mais lucrativos agora (contabilidade e programação de computadores, por exemplo) estarão sujeitos aos poderes da automação. Para se manter competitivo, ele aconselha os jovens a se formarem em cursos que ensinam a pensar de uma maneira geral, como filosofia:

“Saber como pensar criticamente e avaliar a partir de uma perspectiva global, eu acho, será mais valioso do que o que vemos como carreiras do momento, como a programação”.

Fonte: Aleteia - Melhor carreira para o futuro? Saber pensar – 29/7/218


2018-11-26

A nossa forma de crer e os compromissos humanos


"Novembro é marcado por manifestações a favor das Mulheres. No domingo (25/11/2018), o mundo celebrou o Dia Internacional da Não-Violência contra a MulherAqui no Brasil, a campanha #VcTemVoz, organizada pelo governo federal, mostra que elas têm voz para denunciar esses crimes, alcançar mais autonomia e conquistar novos espaços" (Governo do Brasil. #VcTemVoz, 25/11/2018). 

"Conforme relatório da organização de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional, em 2017, entre 159 países, o Brasil apresentou o maior número de assassinatos de diversos grupos de pessoas, como jovens negros do sexo masculino, pessoas LGBTI+, defensoras e defensores de direitos humanos, grupos ligados à defesa da terra, populações tradicionais e policiais" (Questão Discursiva ENADE 2018).


Em Fortaleza, no domingo (25), um grupo de Mulheres caminhou pela Beira Mar em protesto acerca da Violência contra a Mulher. Além de faixas e cartazes havia um estandarte com o rosto de Marielle Franco, Vereadora pelo PSOL no Rio de Janeiro e ativista dos direitos humanos, assassinada em março de 2018. Os protestos visavam chamar a atenção da população presente e das autoridades que é preciso continuar a luta contra toda discriminação, sobretudo quando se trata da violência contra a mulher, assédios, estupros e toda forma de machismos em nossa sociedade. 

Trata-se de um momento importante de reflexão política, religiosa e social. Somos, de certa forma, impelidos a colaborar para que cessem toda forma de violência. Que a nossa forma de crer, seja qual for o "nosso Deus", esteja comprometida com os valores humanos, a vida e a sua dignidade.

Por Antonio Marcos

2018-10-15

Teresa de Ávila: êxtases na arte



Tive a oportunidade de ler a autobiografia: “Vida de Teresa de Jesus  (1515/1582)”. Uma experiência sem igual. Lá está descrito por “Teresona” sua vida quando jovem (as estripulias e a leitura da vida dos santos, a família, a entrada para o Carmelo, o mesmismo (convento e mundo), sua real experiência com Jesus já dentro do Carmelo, a mudança de vida, o chamado para a fundação de novas casas, o impacto na vida da Igreja e da espiritualidade cristã, sobretudo mística. Tudo isso dentro do contexto de sociedade onde a mulher não era vista como protagonista e ainda mais a inquisição. 

Apesar de tudo é emocionante a sua história de vida! Teresa de Ávila deixou na vida da Igreja obras de muita relevância: “Caminho de Perfeição, Pensamentos sobre o Amor de Deus e Castelo Interior”. Na obra “Vida” descreve a experiência do “ êxtase” que viveu quando encontrou o Anjo de Deus. Segundo Teresa, ela viu um anjo atravessar seu coração com uma lança dourada, o que lhe causou uma imensa alegria e uma intensa dor. Suas experiências místicas de êxtases foram alvo de desconfiança e investigação por parte da Igreja, mas foram atestadas como verdadeiras. 

O artista Gian Lorenzo Bernini (1652 / Roma – época do Barroco Italiano) fez uma bela escultura em mármore do que descreveu Teresa. Segundo Teresa, ela viu um anjo atravessar seu coração com uma lança dourada, o que lhe causou tanto uma intensa alegria quanto uma dor intensa. 15 de outubro marca a sua memória litúrgica na Igreja. Santa Teresa, Doutora da Igreja, rogai por nós!

Por: Antonio Marcos

2018-10-11

Ensaio: "A Inimizade e a Amizade"




"Nada mais é mais tolo do que sacrificar uma amizade pela política"

Diante do contexto que vivemos no mundo da Política nas Redes Sociais, no qual as pessoas colocam em cheque seus relacionamentos, o ensaio de Milan Kundera fala exatamente de amizades fraturadas por divergências políticas. Um texto oportuno e de extrema riqueza e atualidade: 

“Em nosso tempo, aprendemos a submeter a amizade àquilo que chamamos de convicções. E até mesmo com orgulho de uma retidão moral. É preciso realmente uma grande maturidade para compreender que a opinião que nós defendemos não passa de nossa hipótese preferida, necessariamente imperfeita, provavelmente transitória, que apenas os muitos obtusos podem transformar numa certeza ou numa verdade. Ao contrário da fidelidade pueril a uma convicção, a fidelidade a um amigo é uma virtude, talvez única, a última. Hoje, eu sei: na hora do balanço final, a ferida mais dolorosa é a das amizades feridas; e nada é mais tolo do que sacrificar uma amizade pela política”

Milan Kundera - Escritor, Compositor e Musicólogo Pianista Checo (1891-1971) - Ensaio “A Inimizade e a Amizade”, livro UM ENCONTRO, lançado no Brasil em 2013 (pg. 112).

Por: Antonio Marcos

O ódio digital nos desfigura



Em tempos de intensa polarização política, de extremismos e de muita violência digital, em detrimento do valor da pessoa e do seu direito de escolha, eu andei pensando na “Teoria Multifocal” do médico psicanalista Augusto Cury, quando faz uso dos termos “proteção das emoções” e “gatilho da memória”. 

É, na verdade, um conteúdo riquíssimo para a nossa vida: o ressignificado do ontem, nossas ações no hoje, sobretudo a maneira como processamos essas ações, as palavras, as assimilações do “sujeito em potencial” que faz abrir em nós as janelas killers – zonas de conflito, ou seja, gente que gosta de jogar sobre nós suas ditaduras na forma de pensar, suas acusações e seus ódios disfarçados em raiva, frustrações, e desequilíbrios emocionais. Lembrei-me, inclusive, do que disse o Cardeal Ratzinger (Sal da Terra): “Hoje não temos mais os ateus inteligentes, que dão as razões pelas quais não creem, mas os ateus da revolta!”. 

Ninguém está livre da ideologia, e parece que o discurso saiu da razão para a “ideologia da revolta”. Justifique com serenidade suas razões, pois elas serão lidas e refletidas, mas não caia no equívoco de ignorar e desconsiderar as razões do outro. O ódio digital parece nos desfigurar e o que pouco fazemos é sermos pessoas politizadas e sensatas! O objetivo não deveria ser o “proselitismo político”, mas a maneira inteligente e serena de apresentar as razões. Discordar é um direito absoluto de cada um, mas a revolta nunca levará a boas ações! 

Conquiste, não agrida! Saiba aproveitar a oportunidade de fazer o outro pensar e refletir em suas razões, mas entenda que convencer o outro não é o mais importante!


Por: Antonio Marcos

2018-09-19

Caminho de desafios e alegrias



Meia Maratona do Sol 2018, especificamente 15 de setembro (sábado, 16h, Natal-RN), eu estava lá! Presente na Terra do Sol para correr pela primeira o percurso dos 21k da Meia do Sol, pude, antes de tudo, desfrutar de cada detalhe até o momento da largada: a viagem, os amigos que reencontrei, a troca de experiência, o estar junto no mesmo hotel, o recebimento do Kit e a descontração pela alegria de estar alí presente e sentir a cidade respirar a prova. Muito legal! Um clima entre os atletas muito agradável.

O palco foi a Arena Dunas e toda uma mega estrutura para a corrida recepcionar os atletas e corresponder a todas as expectativas. Assim aconteceu, sobretudo as divisões de largada por distância, a exatidão do horário, as vias de qualidade e completamente inderditadas, a hidratação, os pontos de apoio (música, ambulâncias, energético, banheiros, etc). Surpreendente, ou seja, não se trata apenas de marketing. A Meia do Sol é realmente uma grande competição, tendo entre os inscritos quase a totalidade de representantes dos Estados do Brasil.

Posso dizer que estava treinado, focado e concentrado! A largada foi em ritmo forte (04:18) e o percurso é uma prova de fogo para quem não estiver preparado e não saber trabalhar com a mente. Na ida temos o vento contra, porque descemos até a praia. A volta tem as subidas como o grande desafio. É preciso estratégia, pernas, coração e mente. Além das condições físicas usei de toda a minha experiência dentro da prova para chegar no tempo previsto. Cruzar a linha de chegada no Pace de 04:15, com sprint forte e marcar 01:30:06, levando em conta todas as dificuldades daquele percurso, foi muito emocionante! Em 2018 evoluí de 01:36 para 01:30, algo surpreendente em cada corrida! Obrigado, meu Deus! A corrida me recorda sempre o caminho de desafios e alegria no teu amor.


Arquivos: Foto e Vídeo / 2018 / Meia do Sol
 #deutudocerto #euamocorrer

Por: Antonio Marcos

Lembre-me mais uma vez


A canção YOU SAY (Você Diz) da cantora e compositora de música cristã contemporânea americana, Lauren Ashley Daigle (Lafayette, Louisiana), nós já conhecemos bem de tanto tocar , porém, com suas letras sempre muito inspiradas e que apresenta o diálogo com Deus, traz nesta canção uma tocante mensagem.

"Lembre-me mais uma vez quem eu sou porque preciso saber", diz a canção. Na teologia cristã nós entendemos isso como "memória da salvação", algo indispensável. A pessoa de fé, sobretudo quando vive determinadas etapas de sua história, suas crises e interrogações, pede exatamente isso a Deus: recorde-me quem eu sou! Fale pra mim sobre o melhor que aqui dentro existe, permita-me ouvir a sua voz e que ela se distinga de todas as demais.

Francisco de Assis fez a famosa pergunta "Quem és Tu, Senhor? E quem sou eu?", diante de um momento de grandes incertezas e inquietações acerca do projeto divino pra sua vida. E é preciso se deixar amar, escutar o Senhor de tantas formas, inclusive as que menos esperamos e imaginamos, e afirmar: "eu acredito, Senhor, eu acredito no que você diz de mim!"


Por Antonio Marcos

A incapacidade de reconhecer os próprios erros


Homilia - Meditando o Evangelho do dia: Lc 7,31-35 (19/9/2018 - Ano B)

Quando escuto o Evangelho de hoje, fico impressionado com a capacidade humana de criticar e ver problema em tudo. Todos nós temos problemas não resolvidos, mas eu digo aqueles problemas interiores que nós escondemos e achamos que somos pessoas resolvidas. Passamos a vida criticando e vendo problemas nos outros, quando, na realidade, o problema somos nós. Não enxergamos os problemas que estão em nós, mas enxergamos sempre os defeitos e problemas dos outros.

Há pessoas que não têm a capacidade humana de reconhecer o que há de bom no outro. Quando se reúne, é capaz de criticar, zombar, ver defeitos, problemas e dificuldades em tudo e em todos, entretanto, quando é para procurar algo de bom, não é capaz. Ou seja, é aquela pessoa que vê erro em tudo e em todos, mas não é capaz de reconhecer seus próprios erros. Com isso, não acolhe a verdade, a misericórdia nem a salvação.

É isso que está acontecendo com os homens da época de Jesus: “Com quem hei de comparar essa geração?”. Essa é a geração daqueles que, de fato, só vivem para reconhecer problemas, defeitos e dificuldades. Quando olhamos para as nossas igrejas, comunidades e para o mundo em que vivemos, é verdade que têm limites e até erros grotescos, diante dos quais, humanamente, nos perguntamos: “Como aconteceu isso?”.

Este reino é constituído por pessoas humanas como qualquer um de nós. Queremos que os outros entendam que somos humanos, mas queremos olhar para eles como se fossem divinos; e quando não vemos o divino neles, vemos demônios. Mesmo Jesus vindo para os seus, eles O rejeitaram, viram n’Ele defeitos e problemas. “Jesus está com os publicanos. Ele come com os pecadores, então, Ele é um comilão e beberrão. João Batista, que O precedeu, que veio entre nós, não comia nem bebia, então, ele está possuído por um demônio”. Para quem quer sempre ver o lado negativo e problemático da vida, tudo é problema, em tudo há defeito, em nada há solução. A pessoa acha que somente ela é boa e merece reconhecimento.

Que Deus nos cure, salve-nos, liberte-nos das falsas pretensões e nos dê o verdadeiro olhar para enxergarmos o mundo com o olhar da misericórdia.

Fonte: Canção Nova / Liturgia Diária