2018-06-21

Os momentos grávidos da nossa vida



É Mário Sérgio Cortella, filósofo e escritor brasileiro, que cita a frase a seguir na sua obra “Pensar nos faz bem!”, dita por Santo Agostinho (Teólogo, Séc. V): “Quando dois presos olham pelas grades do lado de fora, um deles olha a lama no chão e o outro olha as estrelas”. E diz o escritor: “Não é brincar de otimismo, mas a capacidade de buscar dar à luz uma nova situação. Há momentos graves e momentos grávidos”.

Sim, há situações que escondem exatamente um objetivo, uma missão, um propósito, um porquê. A história da fé, antes e pós ressurreição de Jesus, está repleta de exemplos. Por mais que pareçam acidentados os fatos, incompreensíveis as situações, existe aí uma lógica, uma razão, uma forma de descobrir e constatar o caminho a seguir.  Trata-se de uma preciosa oportunidade pra gente mudar e viver melhor. Não significa que isso seja fácil de viver, de entender e compreender, mas, uma vez estando disposto a enfrentá-la com serenidade, paciência e fé seremos impactados pelo sentido escondido na situação.

É bonita a história do profeta Jeremias (650 a.C /Israel – Reino do Norte) quando, a pedido do próprio Senhor, dedicou-se à missão de anunciar a Palavra de Deus e profetizar. Ele foi submetido a grande sofrimento e às humilhações. Aquilo o deixou arrasado e decepcionado. Apesar de tudo, superou o sentimento de aparente fracasso, mesmo sem entender toda aquela situação. Pensou em desistir, mas a “Palavra do Senhor o devorou por dentro (cf. Jr 20,9). Por fim ele entendeu que não havia indiferença, mas propósito. Também acontece exatamente isso em outros contextos da vida. Deus está no controle de todas as situações! Vejamos com os olhos da fé o que se esconde em cada “momento grávido” da vida: a lama ou as estrelas!

Antonio Marcos

2018-06-15

A dor pode te fazer uma pessoa nova



Já parou pra pensar que os momentos de crescimento interior, de reflexão, de reformulação da vida, de reencontro consigo acontece de forma mais esplêndida e oportuna diante do momento de dor? Pois é, isso não é “masoquismo”, sentimentalismo, culto à tristeza, muito menos questão religiosa apenas. Isso é constatação de quem, mais do que ninguém, estuda o comportamento e os mecanismos do pensamento humano, como a psicologia, a psicoterapia, a psicanálise, a hipoterapia, e também, é claro, o fenômeno humano religioso baseado em fatos concretos, etc. Não é o caso aqui falar desses mecanismos, porque se trata apenas de uma breve partilha e não sou um especialista na temática.

É surpreendente fazer o “processo da regressão da vida”, ou seja, voltar a um tempo da nossa história para compreender os nossos dias atuais, as nossas escolhas, o que dá certo e o que dá errado, nossos traumas, nossas projeções, nossos apegos e nossa forma de se relacionar com tudo em torno a nós. A religião cristã usa alguns mecanismos para essa regressão, e conheci o mais recente, o “fio de ouro”, desenvolvido pela Comunidade Católica Shalom, com base na Logoterapia, ou seja, o estudo sobre o sentido da vida, que tem como âncora o sobrevivente do campo de concentração, o psicanalista Viktor Frankl (1905-1997).  Confesso que seus livros fazem sempre uma revolução na minha vida, quando fala da dor no campo de concentração, do que é mais importante na vida, da capacidade de ressignificar um sentimento de perda e vazio e de como devemos viver a esperança. Existe uma dor maior que a física, e é exatamente nesta que mais podemos crescer, evoluir, voltar a ser quem somos, pessoas! A dor pode te fazer uma pessoa nova!

Descubramos em nós o que é o amor e o que é o apego, o motivo pelo qual sofremos. Descubramos os mecanismos mais infiltrados nas fases primeiras da nossa vida e que acabam “guiando inconscientemente a nossa história” e apontando injustamente os culpados. Podemos ser livres de uma vez por toda! O seu hoje e o seu futuro necessariamente não quer dizer que serão uma repetição do ontem. Sua vida não é um rio congelado. As coisas não estão pré-determinadas, mas são construídas com o que você aprende e vive na sua vida hoje. Eu não sei ensinar esses mecanismos, não sou capacitado e nem apto para isso, mas apenas quero dizer que o momento oportuno pode ser o da dor, da perda, da frustração, do sentimento de rejeição, etc. Aproveite isso! A Bíblia tem incontáveis histórias reais de como algumas pessoas viveram esses processos, eu poderia citar muitos deles, mas, o mais importante é você aprender a fazer da sua dor esse processo de regressão para dar-lhe um novo significado, compreender o que está por trás, ser livre, perdoar os outros e ser feliz, viver como pessoa que ama e sorri, sente e chora, mas é feliz!

Antonio Marcos     

2018-06-13

Santo Onomástico: valorize isso na sua vida


Antigamente a comemoração do Santo Onomástico, ou seja, “o santo do seu nome”, era mais celebrado que o aniversário. Claro que isso mudou e boa parte das famílias dos tempos secularizados dão nomes aos filhos provindos dos galãs da televisão, artistas da música, futebol e cinema, etc. Esses costumes caíram em muito no desuso.

O Santo Onomástico é o seu padroeiro e protetor especial. Temos para com ele devoção e buscamos conhecer e nos inspirar em sua missão e tentar nos aproximar do seu exemplo de vida. “É certo que o nome de cada pessoa é sagrado, é o ícone da pessoa, que exige respeito , em sinal da dignidade de quem o leva”, diz o Catecismo (2158). Deus fala mediante as Sagradas Escrituras sobre o nome, quando diz: “Chamei-te pelo teu nome: tu és meu” (Is 43,1) e “o porteiro chama as suas ovelhas uma por uma” (Jo 10,3). Valorize isso na sua vida e, se preferir e for conveniente, diga às pessoas sobre a importância do nome delas, quem foi Maria, José, Pedro, Tiago, Paulo, Lúcia, Ana, etc.

No meu nome, mesmo gostando e tendo o grande orador e pregador “Santo Antônio de Pádua” (13 de junho) e o filósofo, teólogo e místico “Santo Tomás de Aquino” (28 de janeiro), eu escolhi celebrar SÃO MARCOS, evangelista (25 de abril). De tudo o que estudei, observei e senti da sua vida, confesso que muito me identifiquei! Claro, infelizmente minha vida anda longe das pegadas deste homem, mas seu exemplo e participação no mistério da salvação me encanta.

São Marcos não conheceu Jesus pessoalmente, era criança quando passou a conviver com aquele turbilhão de acontecimentos e sua casa se tornou Cenáculo de encontro dos primeiros cristãos, mas se tornou discípulo de Pedro e Paulo. São Marcos foi um grande evangelizador e apaixonado pela “Celebração do Pão”. Suas relíquias estão na Catedral de São Marcos (Veneza – Itália). Ele é representado pelo “Leão” porque começa o seu Evangelho apresentando João Batista, “a voz que grita no deserto”, lugar onde o rugido do Leão tem temor e respeito! São Marcos, rogai por nós!

Antonio Marcos

2018-06-11

Namorados: construir a vida juntos, um desejo de Deus



É delicado, porém bonito falar do namoro, e o quero fazer de forma breve, mas significativa. Esta é uma necessidade da pessoa. Todos queremos encontrar alguém, ou ser encontrado, para então, deste encontro, deixar a vida se entrelaçar em suas etapas necessárias até chegar ao vínculo maior. As diferenças, é claro, vão se alinhando e se ajustando sem perdermos a nossa identidade. Confesso que este é um caminho profundamente apaixonante! 

É bonito e meio louco o fogo da paixão, mas ele amadurece sem jamais perder o calor, o encanto, a sedução, o respeito, as mudanças próprias, o compromisso e a dedicação que pede a escolha. Sem essa combinação o amor dos namorados definha e o coração, o corpo, a alma e os sonhos da felicidade querem se apaixonar outra vez, mesmo que isso implique  em perder o cordão umbilical, pois, afinal, o namoro é um caminho de maturação até à simbiose. Nada deve impedir o desejo ardente da felicidade, nem mesmo os erros, mas é verdade que os namorados vivem uma identificação mútua e isso, necessariamente, purifica a vida, as ações, os pensamentos, a nossa vida egoísta e individual. O amor a dois pede comunhão nas chegadas e partidas!  Construímos juntos uma história irrepetida, original, e simplesmente nossa!

O namoro tem como vocação gerar comunhão e encontros de felicidade. Todos os dias descobrimos a quem amamos. Nossa memória afetiva vive a saudade de forma intensa e não consegue se livrar dela. Cada experiência nos refaz e nos conduz ao melhor de nós. Quando namoramos geralmente somos os “criadores do nosso mundo”. Paciência, pois Deus quis assim com os enamorados! A Bíblia nos conta exemplos lindos, embora, em nossos dias, o namoro viva os seus desafios próprios, mas o centro permanece: o amor!

Desejamos que o relacionamento se mantenha vivo, porque namorar é construir, nunca destruir! Namorar não é o fim, mas uma etapa importante da vida, digo, de toda a vida, pois também os casados vivem um eterno namoro! É verdade que não precisamos dele para seguir e estar feliz, realizado e encontrado, mas para somar com a nossa vida, caminhar juntos no universo do coração e do amor e viver a vocação de ser para o outro dentro deste vínculo. O dia dos namorados requer a felicitação e a profunda gratidão porque é muito bonito e misterioso a gente estar ligado a uma pessoa, mutuamente, caminhar com ela e construir a vida assim, juntos! Parabéns! 

Antonio Marcos 


2018-06-10

Jamais desistir da amizade com Deus



Incrível o diálogo de Deus com Adão e Eva acerca do fato dele ter se escondido, e o fez porque estava com medo, assim justificou. O medo veio com a consciência de que estava nu e que agora existiam as concupiscências. O desenrolar de como ele comeu a maçã nós já sabemos. No entanto, a pergunta “E quem disse que estavas nu?” é desconcertante. Deus não acusa, mas pergunta, faz o homem se questionar acerca de suas própria escolhas. Ele vai ter que dar uma resposta à situação, não Deus, não os outros. 

O pecado, ao entrar no mundo, continua a fazer o seu prejuízo, mas o homem tem a liberdade e a capacidade de escolher outra coisa, embora isso não seja fácil. Encontrar culpados, justificar que sua vida foi assim e assado e que as circunstâncias o induziram não é suficientemente convincente. Não somos máquinas, mas pessoas. Temos a opção da dignidade de filhos de Deus ou da escravidão, do vazio, da falta de sentido, da vida que envergonha até a nossa consciência. 

 Eis que somos impactados por uma outra verdade: “Não desanimemos!” É isso que o apóstolo Paulo diz a todas as pessoas. Mesmo que caiamos, mesmo que vejamos as partes corrompidas em nós pelo pecado, não deixemos de olhar e buscar o invisível, que nunca passa. A Igreja não separa os que têm muito e os que têm poucos pecados, essa missão não é dela. Ela é Mãe, não juíza. O que se deseja é o caminhar, a continuidade da vida cristã, a luta interior, a construção diária de uma dignidade compatível da vida de batizados. Caindo e se levantando, essa é a vida do cristão. Não desanimemos com o pecado, mas confiemos no amor e na graça de Deus. 

 Jesus fala que “Satanás não pode expulsar Satanás”. A desintegração interior não pode nos fazer pessoas inteiras. A sujeira nossa não nos limpa. Tudo na vida exige estratégia, por isso esse processo de conversão interior vem de Deus, que se utiliza de muitas situações na vida. Negar essa ação, tendo consciência dela, pode nos custar muito. Se não somos humildes o suficiente para deixar Deus nos formar viveremos colocando a culpa nos fatos, nas pessoas, nos erros, nas nossas próprias mazelas. 

Existe algo que Deus prioriza na nossa vida: a sua vontade! Isso não é um código de ética e moral, faça isso ou aquilo, esteja ligado a esta ou aquela pessoa, seja famosa ou uma pessoa simples, mas aquela ligação com a nossa própria consciência cristã: minha felicidade consiste em jamais desistir da amizade com Deus.

Antonio Marcos
Leituras do 10º Domingo do TC: 
Gn 3,9-15 / Sl 32 / 2Cor 4,13-18-5,1 / Mc 3,20-35.

2018-06-01

A importância da fé judaica, segundo a Teóloga Aíla Pinheiro



A Profa. Aíla Pinheiro (Instituto Nova Jerusalém / Fortaleza) coordenou Seminário sobre o Judaísmo, pelo Curso de Graduação em Teologia, na Faculdade Católica de Fortaleza, dia 23 de maio de 2018.

O Seminário tratou da cultura religiosa vivida pelo Judaísmo no tempo de Jesus Cristo até os nossos dias. Muito interessante conhecer sobre o manuseio e a guarda de todos os símbolos religiosos, tais como a “Torá, as Vestes Litúrgicas, os Ritos, a Proclamação pública na Sinagoga e o Estudo do Pentateuco (os primeiro livros das Sagras Escrituras).

Para a Docente Aíla Pinheiro, que é doutora em Teologia e Escritos Judaicos, “o momento é importante porque nos dar, além do conhecimento, a sensibilidade cristã com a realidade judaica. Eles, os Judeus, são os nossos irmãos maiores e observar essa relação com o que é valor para eles ajuda no nosso compromisso e zelo com a fé cristã”.


                                      

Fotos: 
Frei Lorrane Clementino, OFM - VEJA MAIS: https://goo.gl/c7aohw

Por: Antonio Marcos

Tenhamos uma vida eucarística


A Paróquia São Benedito (Centro / Fortaleza) celebrou na quinta-feira, 31 de maio de 2018, a Solenidade de Corpus Christi. O Clero de Fortaleza e uma multidão de fiéis participaram da Cerimônia. O Santuário completa 80 anos de Adoração ao Santíssimo Sacramento e 50 anos de Paróquia, um marco extraordinário! Dom José Antonio Aparecido Tosi Marques, Arcebispo, não compareceu por motivo de saúde, mas recebeu as intenções de oração da assembleia. 



Confira um pequeno trecho da homilia do dia pelo Pe. Duarte

"A primeira verdade é de que você é amado por Deus e que é chamados a ter uma vida eucarística. E ter uma vida assim é amar como Jesus ama. Ele amou se doando por completo. Esta é uma forma que não cabe determinadas escolhas. O que é ruim não deve fazer parte da nossa vida. Buscamos o sacramento do Matrimônio - assim como as demais relações e seus vínculos -, mas não queremos nos comprometer com suas consequências, tristezas e alegrias. O individualismo não deveria fazer parte. Mas deve haver a transparência, a comunhão. Somos pessoas que temos a missão de ser sal e luz no mundo, não somos quaisquer pessoas, mas cristãos. O diferencial em nós deve ser visto. O Corpo de Cristo é cura para o mundo. A Igreja requer de nós a construção da civilização do amor. O Ano do Laicato evidencia os espaços onde todos os cristãos participam: o desafio e a grande missão! Deus precisa ser glorificado em todas as nossas ações. Os mínimos gestos humanos devem ser metas para se viver com alegria e testemunho".


Antonio Marcos

2018-05-28

Existe um para sempre



Costumamos dizer que nada é para sempre, que tudo “é eterno enquanto dura”, que a felicidade é hoje e que nada nos garante o amanhã. De fato, existe em tudo isso uma dimensão de verdade, mas também muitas ressalvas, pelo menos para quem enxerga com os olhos da fé e da esperança cristã.

Numa cultura líquida - como diz o filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman (já falecido) – “vivemos a precariedade dos valores e a metamorfose dos comportamentos. Os velhos modos de fazer as coisas acontecer não estão funcionando adequadamente, enquanto os novos estão sendo procurados, testados e até rejeitados”. Tudo parece óbvio, mas quanta profundidade e verdade nessas palavras. Como fazer simbiose entre o imanente e o transcendente? Como falar da eternidade em dias de tanta absolutização da precariedade da vida? Impulsão aos homens de bem e motivação a nós que que cremos.

Existe uma dimensão da liberdade, que é uma conquista do Cristianismo – como diz o filósofo Battista Mondin -, na qual se confundem as nossas suspeitas de transitoriedade dos valores. Ou seja, há vida dentro e perto de nós se perpetuando e nem sabemos ou percebemos. Quando nos deparamos com determinados contextos somos surpreendidos e forçados a acreditar que existe, sim, um para sempre em muitas coias, pessoas, fatos e princípios.

Há uma dimensão da vida que passa, incluindo certas experiências e aquisições, mas é fato que o Transcendente está presente nas realidades comuns. Somente a inteira cegueira humana e espiritual pode nos impedir de contemplar e tocar a vida plena que se faz vocação, construção e salvação. A felicidade é uma construção diária, é verdade, porque ela passa por nossas decisões e escolhas, mas a felicidade é também e sobretudo uma condição interior, uma comunhão que emana de uma relação verdadeira e transparente conosco, com Deus e com os outros. Muitas relações humanas e seus vínculos expressam exatamente isso.

Por Antonio Marcos